Felipe Conti

Felipe Conti

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Centrífuga.

Amanhã centrifugarei você – plano novo.
Amanhã: fora do centro, fora da boca,
fora do ponto referencial do tempo de viajar.
Em algum momento queria e agora tem
toda a fonte de aniquilação de planos conjuntos,
de panos conjuntos, todos dentro de um quarto.
A tragédia social refletiu-se na tragédia do amor, meu bem.
Estamos partindo hoje, eu e minha vontade de escapar

do engano, da morte viva, da incompreensão.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Ato de ausência.

Os gestos animais perpetuam-se
e segue a guerra escancarando a barbárie:
é dela a sentença da fuga. 
Fogem por não saber lidar com a carga –
conjunto de pedras e colares vexaminosos
em bolsas amareladas de tempo.
O anoitecer é belo se acompanhado da
extinta capacidade de se ausentar da ideia
de progressão dos modernos homens.
Queria profundeza, fui-me para a janela.
Talvez não houvessem tantos problemas
se a máquina da razão usurpasse de si mesma
suas mentiras de veludo.
Por esses dias descansarei meu corpo
em retaguarda, caso queiram levar-me.
Vou variando pela rua.
Apenas hoje aceitarei a íngreme curva dos barrancos,
as pontes de ferro e de tráfegos insensíveis,
a intimação do tempo que exige arranque.
Não levarei ao ringue mais um irmão,
nem mais uma fagulha de obrigatoriedade.
Estagnar-me-ei de toda vontade.
Ouvirei os pejorativos que injustamente
caçam os trabalhadores injustiçados.
Deixo a chuva de completa
conformidade e permito que
inunde toda cadeia de produtividade
por metro quadrado.
Agora estou fora.

domingo, 11 de outubro de 2015

Sonolência.

Atravessaremos a noite, disso precisamos.
A manifestação fantástica do silêncio
afim de redimir-se das criações dos homens
e das formas cansativas de comportamento.
Tudo isso é noite, este sombreamento
que vale o tempo, se visto como facetas
da tropa estelar. E brigam com os olhos.
Atravessaremos a noite porque o dia
apresenta-nos pessoas que não querem ficar.
Não saberemos lidar com a situação.

sábado, 3 de outubro de 2015

O contra gosto.

Surge na contra vontade o dia firme
e a poesia leva aos homens um respingo
do que se pode eleger de grandiosidade.
Ou não.
Surge nas ruas a inatividade do juízo
enquanto coerentes perguntam se merecem
o peso de uma noite sem o cansaço.
O fervilho da noite pode esperar pelos seus
amigos que voam e pairam. Esqueléticos.
Que pena.
E os medianos sempre elegeram os motivos errados
e consolaram-se nessa primitividade
desse nomadismo das palavras – decoradas.

Não durmamos hoje.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Antimoral.

Esqueçam das cabeças que vigiam os corpos
e enquanto puderem, vagueiem pelas ruas.
E de noite. Façam de proposital motivo de vida.
A noite não é morte, a madrugada não faleceu o homem
que soube andar segundo o que disse o respeito.
Quem dera fossem olhos de cooperação
mas são olhos de armas a disparar projéteis inúteis.
Esta turma estranha: o Zé Povo. Estão por vir. Ainda não vieram,
estão detidos em suas casas, falando apenas o desnecessário.
Só não se esqueçam do fogo e da carabina
que outrora já lançava sobre os homens os seus próprios irmãos.
Sejam todos criadores da vida idealmente humana.


quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Noctívago.

Madrugada é para os explodidos da bomba
porque eles a compreendem e permanecem ilesos.
Erga seus ombros e suscitará na rua lisa
toda esta situação fantástica do silêncio e da ausência.
Deve-se falar na hora certa e com a comunhão do grupo
completa-se o envolvimento com algo muito maior
que arrebata-nos do chão quando sintonizamos a grande onda.
Onda que segue rente ao inimaginável.
Segue a madrugada e com ela, congelando na prosa
artefatos da vida, a simplicidade da noite na comunicação
daqueles que preferiram ausentar-se da quentura da cama.
Agora tudo segue a vida e deixa que a ausência das vozes
configure um novo olhar sobre a noite.
A lua insiste e eu, noctívago, desperto-me para a calmaria
desta cidade tão mortal onde os indivíduos se perdem
e se encontram para dar frequência a um lugar qualquer.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Precipitação.

O morador da rua é a metáfora do anti-amanhã.
Termo que não existe; agora eu o proclamo
para explicar certa desistência.
Vi camaradas expostos nas ruas.
O amanhã não se abriu, impactou-se.
O amanhã assim não vigorou, deixou meus irmãos para trás
na boca dos lobos carniceiros de cidade pequena.

A precipitação se inicia na rua de trás e nas outras,
a vida segue e a cabeça caduca na lua.
Na rua de trás e nas outras mil da cidade.
Tudo tão repetitivo como o belo ciclo
da bela vida social daqueles que sentem
a necessidade de descartar seu exemplar
para a segurança do inimigo moralista.

domingo, 12 de julho de 2015

Elegia a Itajubá.

Itajubá triunfa abaixo das pedras onde outrora venciam as águas.
Para onde foram? A madrugada estabeleceu-se com as ruas ausentes de indivíduos:
elas mostraram maior compreensão sem que precisasse dizer algum registro de número.
Trafego nessas ruas de conhecidas, queridas silhuetas, inflamo meu motivo
e desmorono nas esquinas dos olhares taquigráficos que duvidam de mim,
logo eu que sou filho teu, que em tempos de guerra ergueria braços que ergueriam barricadas
em detrimento de outras forças que jamais poderiam contigo, Itajubá.
O inimigo não teria chance mesmo que a fábrica de armas fosse vítima do acaso ogival.
Que a cidade de sempre não se curve aos corcundas que excederam o umbigo
e são visíveis quando dia; no centro da cidade algumas latas de conserva guiam os autos
enquanto outros – que não moralizam – comunicam-se e evoluem.
Itajubá, saberá você guiar-se quando te esgotarem de um pensamento que já foi?

quarta-feira, 8 de julho de 2015

A ordem.

O tempo existe para que se definhe
a cada passo na calçada da pressa.
Nasce, cresce, explode e definha;
nesta ordem que nenhuma exaltação pode ocultar.
Todas aquelas conversas que antes foram
amplamente desejadas e executadas
em praças tão convidativas e calmas,
definharam-se sem cancelamento.
Nunca adiaram esta verdade.
Nunca cuspiram fora esta vespa
de asas tão impossíveis de manobra.
É que a manobra requer os olhos.
Tomem cuidado com a ambivalência da vida:
uma hora se está dentro, outra hora fora e
depois a poesia é sempre a culpada.
Não limpem as masmorras afim de
 evitar uma ilusão tão clara; limpem os olhos.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Madrugada de fatos.

Escute o que digo: o poeta vai perder a vida no papel.
Quando o início e o fim encontram-se
a vida se explica em poucas cenas,
poucas palavras, poucos abajures
que venham a iluminar a entrada da casa
que também pode ser saída por motivo de hora.
É que o Colibri voa tão perto da água
e percebo que ele a compreende por muito;
deixem que os indivíduos da cidade voem
para perto da cegueira e do amor.
Não deixem que morram na água.
Aqueles homens que moram embaixo do chapéu
são tão frios que a noite não pode vencê-los.
Na cidade dos loucos ninguém tem gosto de leite,
alguns possuem suas metáforas para manterem-se
mas caem no momento em que um outro elemento
se eleva e toma-lhes a luneta.

terça-feira, 16 de junho de 2015

Carta aos bem-comportados do país.

Vou dizer: talvez um dia vocês esqueçam a ventania
e venham a falar das coisas que aprenderam.
Que me prendam.
Também quero ser poeta, também quero
a vacina contra a incerteza certa.
Tão espatifado: não me encaixo em mãos;
ocupo vagas que não vivo e caio fora.
Situo-me longe das bordas do admissível e
aqueles que entendem a psicologia irão
sentenciar-me porque também precisam trabalhar.
Compreenderei melhor quando ocupar-me
de um tempo que possa chamar de meu e para mim.
Vocês que são lúcidos deveriam mesmo
é banir-me da sociedade.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Animal cinza.

É porque ele necessita envolver-se
com o todo e com o tudo que o atormenta
até que venha a tentar explicações.
É por isso que é extraordinário
este animal que habita as casas,
petulante como um anzol que fisga
o peixe que de nada sabe da vida.
Cancelemos por imediato
qualquer intervenção que não venha da alma.
O animal precisa orientar-se na vida
para que os outros não lhe percam
e seu direito à própria perdição

é negado no globo.

sábado, 13 de junho de 2015

Poema da ausência.

Fui embora: oração de sujeito simples e simplesmente louco
porque sabe que foi mesmo é doer-se bem longe. Cantos frios.
Cantigas de amor não funcionam agora não.
Por hoje não escreverei poemas de despedida
e se de tal forma fossem, refletiriam inacreditavelmente
esses dias desses últimos meses de ausência irreparável.
Estou entre ir para ver a permanência da vida
ou ficar para pegar o bonde que andando distrai os olhos.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Escapulice.

Queria eu acordar vivo na roça.
Puxar meu freio de mão na roça,
esquecer a tão louvada civilização
da cidade que não citarei no papel
e deixar a fumaça densa do combustível
ser tomada de mato e terra vermelha.
A cidade recheada de pasmo – rio
sujo que não pode dar atenção
a quem quer que passe andando –
acabará em definitivo na memória?
Plantar meu som na roça e
ouvir de mim o que quero dizer
sem qualquer medo de erro do método.
Grande erro do método.
Plantar você na roça e com
a nossa escapulice, ter a liberdade

de separar o que não é bom.

domingo, 7 de junho de 2015

Está frio.

Num sábado tão lúcido
posso entrelaçar-me a uma foto que lança um rosto 
e com uma delas quebrar o gelo da água.
Gelo duro que insiste em deslizar a mão e o não.
Bom assim saber de motivo
para dançar na rua da noite, quando cessa
a luz tradicional da cidade – um sapato frouxo
que não canse os pés que dançarão
com uma certeza bem maior que a crise do homem.
Os sujeitos da cidade se matam e eu sigo o contorno;
duzentos mil passos e vejo: não entenderam
o amor como resultado da dúvida. 
Certezas demais aniquilaram os esclarecidos.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Da ruralidade.

Tua face e tua armadilha bucal.
Tua boca rural, dessas de se beijar
em profundidade de gotas de orvalho e cheiro de terra
bem trabalhada feito o gosto da boca bem trabalhada.
Quero ir para o campo.
Temendo pelo regresso cá estou entre os urbanóides e
que triste fim foi o meu na selva de pedra.
Lamento: ainda não cheguei a tamanha ruralidade.
Mas as raridades voltaram, meu amor.
Em algum momento precisarei ausentar-me
das trincheiras e motos de barricadas e
ir a este rural encontro da vida.
Cairei na tua vala propositalmente e não morrerei.

Cuidarás de mim.

sábado, 30 de maio de 2015

Louca carabina.

A carabina dispara balas.
Que engraçado: disparou uma salva de palmas
contra a multidão honesta do país
onde mão que bate não é tapa,
bala que pega, mata.
E mata.
O disparo é suficiente
para interpretar um tapa que,
como um sopro, arrebata a única chance.
A carabina trezentos tiros por minuto
quer mesmo é disparar e com o soldado
brincar de proteção ao rei.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Pólvora.

Estive montado na bala nos últimos anos,
descobri o lado tão frágil da vida
e todas as outras imbecilidades são agora
consideradas bobeiras do ócio.
Estive montado na bala mas não apertei o gatilho
e os dias me parecem como bolachas de polvilho
em copo d'água: espalham-se para nunca mais.
Sigo rente à ogiva que paira e se estabelece
nesses céus que reluziam em prata.
Há uma voz que despedaça:
“o que farei depois da explosão?”
Sigo frente a ogiva dos meus sonhos
que indiscutivelmente colidirá seus megatons
contra a parafernália mecânica e grande
e engenhosa e magnífica.
Enquanto a distância da lua estupra a cabeça,
existe seriamente a possibilidade da mitologia
para esboçar resposta. Sabemos e negamos; tolice.
Existe a não-sobriedade e também a idade
que ainda não chegou ao cais dos percorridos.
Carne fresca.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Sobre a nomenclatura.

Morena-vida-verdade;
assim fez-se a dádiva da vida,
assim fez-se a realidade que mata.
Tão dura é a constância do amor
frente a incerteza da vida e do dia
que agora espero pelo mesmo amor
e contemplo este mesmo dia que vivo.
Este amor, um gesto de guerra
que necessita da paz de bandeira branca
que num campo estende-se, sem jamais
abandonar a ofensiva do front.
Seu cheiro na ausência do perfume
e seu corpo sem a mesquinhez da roupa:
a exatidão da vida que ainda não veio.

E virá.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Não-amor.

Voe, voe pássaro do amor.
Não podem mais permanecer aqui 
essas asas que querem cobrir toda a poesia;
deixe-nos escrever também sobre
as ásperas atitudes que cercam
o pobre e grande itinerário humano.
Posso sim levantar a marca do não-amor
e levar o oposto apenas a quem vier com tranquilidade.
Mas não mais me tomará o tempo de um dia inteiro?
Assim espera-se até que venha a falhar novamente.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Desequilibrista.

Observe a finita corda íngreme
que estende-se daqui ao lado cinza da borda:
sobre ela cambalearei recitando nomes
que amei durante o desequilíbrio;
porque um desequilibrista experiente
nunca sabe a hora de retroceder.
Sabe ele que certas perguntas
quebram o protocolo de segurança
e o colocam à beira da incerteza.
Ainda é possível prever minúsculos
detalhes do precipício, mas é em vã utilidade.
Desequilibristas e seus dias monofásicos: um erro
ou um acerto de contas? Saindo pela porta,
ainda consigo situar-me nesta cidade
mas não é exatamente isso o que eu quero saber.


segunda-feira, 4 de maio de 2015

O terceiro dia.

Me disse, você, que eu ficaria em maus lençóis sem o seu itinerário
mas fui removido propositalmente e com isso permaneço com a glória de meu nome.
Acredite: de manhã as cores ainda se apresentam em espetáculo;
acredita-se, por essas bandas daqui, que o humano é bom
quando a veia alterada pula no braço e do braço para a própria vida.
Não justifiquei minhas pernas com a distância geográfica
e detectei a existência de coisas bem maiores que o chão.
Você não compreendeu e deixou-se levar por números de marcação.
Ainda vivo, apesar de estranhar minha época, a minha maravilha: descobri que posso.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Poema mínimo.

Fui trocado.
Este desencaixe pode encaixar-se
em outras formas além do amor?
A água do chuveiro retira o óleo
mas mantém os olhos no lugar.
O corpo limpo e nada a dizer.
A pior dor ainda é a urgência.

Sobre o que vi ontem.

Os sujeitos amam a truculência das máquinas;
eu confesso a incidência de precisar esperar
até que alguém com pernas suspensas venha atingir-me.
Poderiam ter ouvido-me antes, porém eu estava vivo.
Mas a voz das máquinas eles bem ouvem.

É que existem perguntas miúdas de respostas cumpridas
e ligeiramente são feitas em lugares de rápida abordagem.
É assim mesmo porque nem todos podem esperar;
eu insisto, espero e perco pontos em jogos de gente grande.

Criam-se sentimentos que não combinam com
este estado atual da vida atual,
que não se envolvem com o que foi feito
nem com o que deve ser feito.
Sei que não lhe trará conforto algum,
mas é isso: vá embora.

sábado, 18 de abril de 2015

Ana e os robóticos.

O motorista do ônibus
alcança velocidade alta.
Ana e os robóticos
no primeiro banco à direita;
e ela ainda mal sabe
que também será
se não frear.
O masoquista do ônibus
alcança a dor da falta.
Ana e os protótipos
na primeira curva à direita;
e ela ainda mal sabe
que também virá
se não parar.
Ana, pare o ônibus
e vá ver animais
que ao menos
perguntam o dia do mês.
Pare o ônibus e diga-lhes:
irei mais longe.

sábado, 11 de abril de 2015

À jornalista.

Caso a vida me confunda,
direi que planto bananeiras
para ver bananas maduras.
E de tão esclarecidas,
caem sozinhas e penetram o chão.
Desaparecem.
Mas vou logo embora.
Devo correr paralelo aos
indivíduos do meu tempo -
deveria aprecia-los;
não acompanha-los seria
erro fatal desta minha época.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Minha lei (burocracia necessária).

Variar.
Tenho esse direito: o de variar.
Tenho como certeza essa qualidade
de quem sabe ausentar-se dos podres.
Variar é necessário onde pessoas nuas trafegam
para vestirem-se de fios de vidro incolor,
tão claros; esqueceram-se da mestra e
da vida que ela (nos) leva. Devo ter pena?
Devo ter métodos?
Devo variar.

domingo, 15 de março de 2015

Confusão cognitiva.

Tenho míseros trinta minutos para retirar-me 
do quarto e, então, poder quebrar mais algumas 
fábulas, no sentido crasso de que devo lê-las e 
cuspir fora os estratagemas.
Não faz sentido que eu me ponha nesta marcha
para o bem de toda essa máquina gigantemente
colocada sobre as cabeças dos homens e mulheres
e crianças deste país, considerando-se que meu maior 
presente – que mais faz-me chorar – veio da rua e tem vida.
Será difícil entender-me? 
Seria eu mais um poema?
Poema de chula utilidade?
Não passaram-se os tempos da truculência;
admiro agora, as palavras e outros animais
porque os indivíduos deixaram-me 
para a lenta morte social.  

segunda-feira, 9 de março de 2015

Poema à cachorra resgatada das águas de um rio e dentro de um saco plástico.

Tentaram contra sua vida, entretanto, permanece viva
e de tal forma que nem mesmo compreendo 
como pôde manter-se dentro de tudo aquilo
que não poderia ser de nenhuma forma, mas foi;
pela tristeza deste espécime que se desculpa: foi.
Simples, não é? Você farejou pelas ruas mais tortas,
as botas tortas foram-lhe pregadas; a dor da rua
foi real e isso estava presente dentro do saco plástico
estúpido de humano estúpido.
Vale ainda o valioso conselho da mamãe que pede 
vagarosamente que eu
jamais me meta com os ilusores e piadistas
desta cidade.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Das elucidações.

Qualquer forma de convocação do tempo resulta da incompatibilidade;
chame o tempo para a adaptação – a tentativa – mas em vão esforço.
Os emaranhados semanais inadaptáveis e
o homem que toca a gaita na travessia: incompatíveis.
A ciência que abriga carrilhões em mentes frescas e
joga-lhes a pensar diferentes formas de consolidação da vida, é necessária
visto que o homem que teleguia e ensina confusos a darem as mãos e
as promessas de um campo de pura bondade não trazem efeito.
Não há compatibilidade alguma de onde não há naturalidade alguma;
e enquanto cães brincam na rua, devo eu repetir a seriedade
de um indivíduo deste mesmo defeito, tão bem silhuetado.
Ninguém suporta a incompatibilidade, preferem à bomba atômica
que subitamente devora.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Desnecessário.

Olharam-me e repreenderam-me 
pelo barulho do copo vazio que esbarrei
(não o quebrei);
não conheceram, ao menos,
os barulhos mentais que não
consegui abater. Normal.
O estranho: são íntimos, tão íntimos.
Não permitirei esta tirania novamente.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Verdade.


Os poderosos não podem contra os versos
porque ocupam-se a registrar apenas seus autos,
seus empreendimentos da cidade e seu gado,
e suas reuniões de gabinete;
os poetas – possuindo apenas o tempo –
registram as perdas do grupo todo
para que todos também registrem
os lamentos da vida.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Poema da inconformidade.

O soldado de bronze no pedestal da praça
jamais cedeu cobertura a alguém que
quisesse enfrentar os dias de sol tão quente,
mas seus gestos uniformes dão-me a certeza
de que os homens deste lugar amam a guerra.
Mesmo que ali esteja para encenar aos esquecidos
as dores dos homens que não voltaram
com suas balas de carabinas frenéticas e malucas,
os gestos da guerra se encerram na silhueta
de bronze, o que dói tanto, o que não aceita-se.
E deste lado eu amo os meus e persisto a lamentar
a estátua, fria e incondicional; desbotada.
Sabemos: nem tudo é amor.
Mas a guerra – me parece – está em toda parte.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Urgência.

Deixem a mensagem aos futuros:
Pagamos preços doloridos demais
por aqueles que dormem em cima dos muros.
Não é preciso rimar o que resta para saber
das consequências – mais trágicas que a morte ocidental.
Médias são as atitudes de vida destes tijolos.
Desejam o alto da pilha: perdem-se no médio da vida.
Médias são as dissoluções de mistérios destes tijolos.
Que não perguntem como vivem; que não
os convidem para uma conversa
ao chão do quintal: de lá não descem.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Lâmpadas.

Trocar ideias:
tão necessário nesta tarde.
Acrescenta-se ao sol
a certeza de que
quem troca signos termina
acrescentando mais
na volta.
E na ida, apenas
se vê o esforço
de querer saber um pouco
mais da vida e do mundo
dos chegados.
Trocar ideias
e trocar também
o tempo, as maneiras
de se debruçar na grama
e a escova de dentes.
Trocar a mentalidade
que às vezes se atrasa
com relógio quebrado
em pulso raquítico
e seguir em frente.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Momento da vida.

Perdi o encanto pelas cidades.
É verdade, agora se fez. Já acontece.
E daí, o que os outros dirão?
Desencantei-me pelas cidades
por que eu vi. Ninguém me arrancará
os bancos das praças da cara
por que não podem com o tempo – ninguém pode.
Eu cometi este grave erro. Erro?
A noite também erra; já o dia
erra conforme é vigiado pelos indivíduos.
O que estou falando?
As cidades. Mas indivíduos são cidades
menores de trânsitos maiores
e turbulências fantasiosas.
Não sei mais o que me guardam
as cidades.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Aos amigos de guerra.

Mortas as faces dos homens, resta admirar as construções por eles erguidas.
Mortas as construções, resta lamentar as margaridas rejeitadas, enquanto elas se embaraçam
no campo triste da rua inexistente. Estamos interrompidos. Meus soldados são os
espatifados que ocupam o campo: não querem guerra, não querem armas, não querem muros.
E os muros concretizam-se sobre a esfera: não podem passar.
As pontes rachadas e ligeiramente tortas: não podem passar.
A liberdade foge-nos de imediata surpresa, tão viva é sua incerteza;
e pelo que dizem as posições de cima, devemos agora retirar-nos da história.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Rua.

Por coisa inofensiva
lhe colocam arma na testa:
a rua vira festa assistida.
Não participo; me arranco daqui
pela porta da cara.
Traje inadequado para a valsa?
Minha
camisaexpressão minha.
Inadequado.
Não gosto da rua agora.
Não a amo mais.
Pronto.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Condição.

O homem que cantarola
gritadamente pela rua
o faz porque explodiu.
Descobriu que certas ferpas
são inacessíveis e eficientes.
Percebeu que os planos
para o ano são os mesmos há três:
explodiu.
Não insista. Não pode ser
de outra maneira que
não comporte uma explosão.
Ninguém lhe apresentará
artigo que diga: não inflame.
Cantarola porque explodiu.
Grita porque implodiu.
O restante não importa agora.
O que não explode
não pode ser.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Comunicado.

Espanta-me a urbanice das pessoas, sobretudo daquelas que não flutuam
e acabam por compactuarem-se com o desespero da normalidade.
Quanto àqueles que não aterrissam, pedimos que considerem o mal tempo
e nos sobrevoem sempre que puderem, mas com cautela de rato.
Porque quando derrocar a cidade, ultrajaremos o seio de pedra
para a sabotagem do século: cuspiremos palavras cuja necessidade
de dizê-las ultrapassa qualquer lançamento de granada em qualquer campo;
descobriremos a ansiedade que murcha as faces que andam. Mas dói;
tememos conhecer a vaidade elementar dos indivíduos e não suportá-la.  

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Rápida nota do dia.

O amor em si
não vence.
É abstração grosseira.
Mas os que se amam
abstraem-se daqui
grosseiramente.
E vencem.
Estes, sim, vencem.

Agradecimento aos ortograficamente descompromissados.

Obrigado você
que transcreveu em signos tão claros
o que foi falado e o que deveria ser entregue.
E foi entregue da maneira que foi falada pela boca
de modo a compreender tudo como foi, perfeitamente.
Cheira à confusão, mas perceba; é confirmação
de uma mensagem dita da maneira de quem a disse.
Ortografia corretíssima na figuração da fala
esconde atrás da folha a vida de quem falou.
Li como foi soada a palavra com o tom de voz
de quem a invocou e transformei-me nesta espécie de
contemplador das palavras – elas inteiras.
Importantíssimo: muito mais que eu e você,
muito mais que a própria letra
que isolada não tece nenhuma vontade.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Lições para a tarde de sempre.

O tempo é inalcançável. 
Não tente: não conseguirá você,
nem sozinho, nem com todos,
parar este moinho de vento
tão aleatório.
Fuja das confortações
distribuídas gratuitamente
e sem pudor.
Sinta a dor da percepção,
a dor de saber que nada pode.
Continue sem trapaças
e sem a maldita morfina.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Tentativa do pós-moderno.

Farei desta ilusão toda
uma ciência de método:
engatilhada a desesperada Teoria Suburbana,
recolherei as implicações das segundas-feiras e
experimentando insistentemente o erro de 
não me questionar sobre a epopeia humana,
resultarei fatos que caracterizam minha vida como comum
e o comum é o colosso deste lugar.
Imenso lugar. Imensa ciência.
Conceba meus motivos 
que agora repousam sobre a mesa grande e importante
e conclua a tese que explique o excesso de velocidade
destes navegantes.
Conclua-me.
Publique-me.
Crie-me na lista da existência.