Felipe Conti

Felipe Conti

sábado, 27 de dezembro de 2014

Poetas fajutos.

O amor tomou para si todas as dores da pós-modernidade
monopolizando os sujeitos de modo a seguir a economicidade do tempo.
Está em todo escrito de veneta; é professado por lei pelos poetas do amor.
Eles o escrevem
eles o comem
eles o engrandecem
eles o cospem
eles o penetram.
O amor tomou para si todas as meretrizes da pós-modernidade e
está presente na extremidade mais saliente do corpo: os dedos.
Esqueceram-se dos outros temas, dos outros membros do corpo.
Esqueceram-se como se escreve poemas e como se declama poesias: 
só escrevem o amor, só declamam o amor.
As outras aflições deste tempo serão retratadas no próximo século.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Condição de quem olha.

Quando noite
os contatos visuais das cidades
explicam-se pelo grande desacordo do tempo
porquanto os sujeitos de outrora
não assimilam a linguagem que é nova
e surge com força de astro,
com voz que sempre grita.
Pode-se compreender a noite como
o expoente maior da ausência.
Aqueles que muito viveram e sua ausência da aproximação
com uma nova interpretação da dor
e os atuais pela ausência
de escrúpulos no árduo resgate
de aprender com as sabotagens
uma nova ideia de engrenagem.  

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Não.

Não professarei lugares sagrados: meu tempo é tempo comum
desses de trafegar em milhões para que se cumpram ordens anteriores à existência.
Borboletarei pelas vias apenas enquanto permaneça claro o que se passa 
sobre o seio da vida urbanóide, que jamais busca a calma.
Dizem ser a criatura a imagem do Extraordinário, mas visto que anda-se
nas ruas travando guerras mentais, tropeçando em cima de outros,
chutando o vento e recitando aleatoriamente a bula, descubro a contradição desses dias.
Urbanóides comentam a existência de compressas quentes, sem mesmo ousar estancar 
o sangue que jorra, porquanto a água que borra a pintura permanece.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Guerra entre móveis.

Me erra, me acerta, me ergue e proclama o fogo amigo.
Após o primeiro comando da sala oficial
me enche de gestos e longas palavras de guerra.
Eu e minha esculachada bandeira branca
de papel crepom: mas quero guerra.
Eu quero guerra.
Ensanguentamo-nos no front..
Eu o soldado raso; você no comando da geografia e
por consolo uma condecoração: um beijo.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Pós-tortura.

Usemos o tripalium descaradamente e sem medida
pois é esta a lei suprema do indivíduo supremo
que por estes nossos tempos habita a maior parte.
Usemos para além o tempo desapropriado,
o termo inapropriado, a voz de trovão
(que possui paciência na espera), os palavreados de sofisticação,
os abajures de couro e demais delitos de uso próprio do animal.
Pensaremos, nós, além dessas trivialidades
apenas nos momentos da vaca magra:
quando gorda o abate permanece,
e desde sempre – o procedimento padrão.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

A negreza da terra.

O café, bruto que é, impulsa minh'alma
qual os negros nossos, ancestrais
que ergueram este lugar.
Sofreram; e digo: também sofro,
sou feito de remorso e perdas lastimáveis.
Mas sei cantar canções que ecoam em torno
do sagrado dom de ser negro n'alma.

O café, preto que é, introjeta
esta negrura abundante que
me enche da riqueza incomparável
e remete ao berço continental
onde este espécime bípede, cujas mãos
impulsionaram a natureza;
também foram estas mãos
ao cárcere humilhadas pelo
tom pálido que cospe
o fogo dolorido de um pedestal
forjado.

Que dor eu sinto.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Noviça ciência.

Engrandecidos os homens, grandes acadêmicos;
mas que interpretam sob um mesmo brilho 
o fosco e o metálico, conquanto que, por sorte, 
encontre alguém que revele a gritante diferença
numa mesma cor.