Não há solução poética para dor alguma.
Repito: não há solução poética para dor
e também não há suporte em lugar nenhum.
E o poeta, desacanhado, toma as dores alheias
e peca gravemente, pensando suportar os ombros.
Sem resposta alguma, nem paz. Nada, agora.
Deseja sair, mas está amordaçado
e seus goles de uísque escafederam-se:
está sóbrio.
Felipe Conti
domingo, 25 de agosto de 2013
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
Realismo grosseiro.
O poeta deve, se preciso, ser mal educado,
E dar ao pé do ouvido, outro tapa certeiro:
Deixemos os afagos para os domingos de tarde,
E nos debrucemos sobre os papelões nas calçadas.
E temos todo o tempo do mundo, mas o mundo,
Com o tempo cheio, precisa desocupar-se.
“Por que não?” Pergunta o poeta,
Sobre outro canto, mais quieto e despercebido:
Mas está desocupado.
E dar ao pé do ouvido, outro tapa certeiro:
Deixemos os afagos para os domingos de tarde,
E nos debrucemos sobre os papelões nas calçadas.
E temos todo o tempo do mundo, mas o mundo,
Com o tempo cheio, precisa desocupar-se.
“Por que não?” Pergunta o poeta,
Sobre outro canto, mais quieto e despercebido:
Mas está desocupado.
sábado, 17 de agosto de 2013
Alcatéia.
Bem
vinda ao teu sonho abafado, bela moça.
Se sente tão bem num mundo tão indiscreto,
Mal sabe que a maldade lhe espia contente,
E mora nos olhos de quem diz lhe bem querer.
Idolatra os lobos carniceiros que lhe caçam,
Entregando-lhes de bandeja a carne fresca.
Condena as ovelhas sensatas que lhe repudiam,
E diz, por estupidez, ter elas carne mal amada.
Mal amada é tu, bela moça, e não percebe.
Se acaba nas noites de alegria, iludida,
Nas patas tortas daqueles que lhe despedaçam.
Acha que o fardo, assim, há de ficar leve.
Orienta-te, bela moça, não se afogue.
Não são os traços mais vistosos que a alma:
Tanto te ilude com quem pouco lhe gosta,
Pouco te encanta com quem muito te ama.
Se sente tão bem num mundo tão indiscreto,
Mal sabe que a maldade lhe espia contente,
E mora nos olhos de quem diz lhe bem querer.
Idolatra os lobos carniceiros que lhe caçam,
Entregando-lhes de bandeja a carne fresca.
Condena as ovelhas sensatas que lhe repudiam,
E diz, por estupidez, ter elas carne mal amada.
Mal amada é tu, bela moça, e não percebe.
Se acaba nas noites de alegria, iludida,
Nas patas tortas daqueles que lhe despedaçam.
Acha que o fardo, assim, há de ficar leve.
Orienta-te, bela moça, não se afogue.
Não são os traços mais vistosos que a alma:
Tanto te ilude com quem pouco lhe gosta,
Pouco te encanta com quem muito te ama.
Barbárie inédita.
Neandertal urbano, animal em tons de loucura:
O polegar revolucionário das primeiras mãos,
Em retaguarda, os outros quatro dedos furiosos.
A selvageria hereditária nas copas das árvores,
Da vida embebida de barbárie e instintiva.
O polegar revolucionário das primeiras mãos,
Em retaguarda, os outros quatro dedos furiosos.
A selvageria hereditária nas copas das árvores,
Da vida embebida de barbárie e instintiva.
São bem mais frias as casas de pedra na cidade,
As esquinas esquartejam a paz original.
A visão não é mais que medíocre, insossa,
Aos moldes do cifrão, sem escapatória.
A soberba cerebral da cachola tão crescida,
A visão não é mais que medíocre, insossa,
Aos moldes do cifrão, sem escapatória.
A soberba cerebral da cachola tão crescida,
Ervilha expandida, o broto da pedra lascada.
A vida lascada agora, nos hospícios da cidade.
E o beco sem saída no crânio sobre o travesseiro:
A vida lascada agora, nos hospícios da cidade.
E o beco sem saída no crânio sobre o travesseiro:
Um fóssil estúpido e parasitário ao natural.
segunda-feira, 12 de agosto de 2013
A César o que é de César.
A graça do Primogênito unge as mãos do sacerdote,
Que a recebe como um relógio de bolso herdado do avô.
Tal é a mesma graça que unge as mãos do poeta,
Que a recebe como um relojoeiro perfeccionista, quase caduco.
Cabe a uns caçar e doutrinar as cabeças desamparadas,
Cabe a outros libertar e guiar as cabeças para qualquer outro lugar.
Que a recebe como um relógio de bolso herdado do avô.
Tal é a mesma graça que unge as mãos do poeta,
Que a recebe como um relojoeiro perfeccionista, quase caduco.
Cabe a uns caçar e doutrinar as cabeças desamparadas,
Cabe a outros libertar e guiar as cabeças para qualquer outro lugar.
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
Brutal antipatia.
Duzentas criaturas bisonhas julgam o seu sapato,
Que era vermelho, mas agora é velho, encardido e inútil.
E nenhuma perna saudável se atreve a mover-se,
Seguir o rastro da sola e dividir o aperto do dia.
As bocas envelhecidas cospem sermões de ontem,
Mas nós já sabemos, e o sono não demora muito.
Que era vermelho, mas agora é velho, encardido e inútil.
E nenhuma perna saudável se atreve a mover-se,
Seguir o rastro da sola e dividir o aperto do dia.
As bocas envelhecidas cospem sermões de ontem,
Mas nós já sabemos, e o sono não demora muito.
Poema do caos.
Recriar o caos é olhar para o próprio umbigo,
Molhar os olhos na saliva dos gritos desesperados,
Alimentar o verme da maçã proibida com o perdão.
Retalhar miúdos à golpes de travesseiros,
Enlatar mais um pescado do mar furioso.
Incendiar colchões em tempos de paz,
Proclamar a independência dos dementes.
Cantarolar canções de amor nas trincheiras,
Idolatrar um andarilho em sua embriaguez.
Entregar Judas aos macacos do zoológico.
Sapatear ao ritmo da selvageria humana,
Consumir as ideias da ilusão hereditária.
Enfeitar o corpo com lantejoulas de mentira,
Esboçar a intolerância que ocupa espaço demais.
Reconhecer que o elo perdido, a Esfinge, e o todo, é caos.
Molhar os olhos na saliva dos gritos desesperados,
Alimentar o verme da maçã proibida com o perdão.
Retalhar miúdos à golpes de travesseiros,
Enlatar mais um pescado do mar furioso.
Incendiar colchões em tempos de paz,
Proclamar a independência dos dementes.
Cantarolar canções de amor nas trincheiras,
Idolatrar um andarilho em sua embriaguez.
Entregar Judas aos macacos do zoológico.
Sapatear ao ritmo da selvageria humana,
Consumir as ideias da ilusão hereditária.
Enfeitar o corpo com lantejoulas de mentira,
Esboçar a intolerância que ocupa espaço demais.
Reconhecer que o elo perdido, a Esfinge, e o todo, é caos.
Uma breve nota sobre Horácio.
Horácio plantava sonhos no quintal de casa.
Suas ânsias de vômito ao atravessar o portão,
Já o diziam: a realidade perdera a graça.
Perdera, pois o jogava longe do âmago das coisas,
Sem conforto, nem esperança alguma; nada.
Preferia mil vezes aos sonhos do quintal.
Suas ânsias de vômito ao atravessar o portão,
Já o diziam: a realidade perdera a graça.
Perdera, pois o jogava longe do âmago das coisas,
Sem conforto, nem esperança alguma; nada.
Preferia mil vezes aos sonhos do quintal.
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