Felipe Conti

Felipe Conti

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Mãe do coração atômico. (Para o instrumental "Atom Heart Mother" da banda Pink Floyd)

Mãe do coração atômico,
a coruja dos filhos com remorso.

A guerra os arrastou;
as três faces idênticas
se despedaçaram no front.

Os gritos maternos vieram depois,
como súplicas, medonhamente.
Primeiro, as dores das trincheiras.

Mas a guerra não cessou,
jamais cessou. A inconformidade
também não.

As artérias também gritavam
pois a boca desmanchou-se.

Os campos de batalha acolheram,
sem qualquer esboço sentimental,
as três faces.

O coração atômico,
então,
explode.

A dor, também atômica,
se foi.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O desfecho extraordinariamente comum.

Entreteve-se tanto
com o mundo de plástico
que já não sentia mais os pisões,
nem mesmo o peso da classe,
que lhe era – ilusoriamente – natural.

E morreu feliz
(bem melhor que outros):
sentia apenas o que
imaginava possuir.

E o erro, quando vivo,
caso pudesse perceber:
possuía apenas o que
imaginava sentir.
Sempre imaginava.
Nem sempre sentia.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Esconder-se do tempo, na chuva.

A chuva torna irmãos
todos que nela se abrigam.
E debaixo de um pé d'água
todo corpo se iguala, subitamente.

O trapo remendado e o paletó de seda;
a pele nova e o couro flácido;
a pobre criança e o filho do rei;
o cabelo enrolado e o outro liso;
os olhos castanhos, os verdes,
os azuis e todo o restante:
estão todos molhados.

Debaixo da chuva toda face
escorre pseudo-lágrimas,
para que se lembrem
que a alma já não está encharcada
depois da chuva.

sábado, 30 de novembro de 2013

Sonho de liberdade.

Regurgite-me
antes que o couro ruim
venha a ser
a carne
que não se mói
entre os seus dentes.

Enquanto é tempo
cuspa-me fora:
introduza
boca adentro
seus dedos tortos
que já me indicaram
para a guilhotina.

Embrulhe seu
estômago
nos toscos
papéis
que você
interpretou
lá fora.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Estouro espontâneo.

O peito esfola
mas não esmorece,
não é, caro par de olhos?

E as lágrimas pontiagudas,
enxuga-las?
Não se sabe...
Respingar-se
também sangra.

E a voz roubada,
retoma-la?

A voz explode
e descansa
teus estilhaços
perpétuos.

Mas não cessa.

Perdoem-me.
A voz já não cessa.

domingo, 17 de novembro de 2013

Poema-democracia.

O ajustado e o desajustado;
o corcunda e o ereto;
o confuso e o destemido;
o preto e o branco;
o beato e o herege:
o poema permite-os igualmente,
no mesmo arranjo.
O poema suporta a todos
e os leva ao mesmo encontro: o buraco – para lembra-los
que toda boca boceja quando tem sono.
E que os significados podem ser outros.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

O que tenho a dizer depois da fuga.

Os inquietos seres do centro da cidade
dizem coisas consumadas, aleatoriamente.
Mas, talvez, os amigos periféricos
queiram dizer coisas a mais.
Mas você não sabe:
você se esconde no outro hemisfério
desde criança, quando começou
a achar graça na massa de concreto.
Você nunca abandonou a Muralha
pois sempre te assombrou
o medo da vulnerabilidade.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Um grito aos camaradas.

Continuem cantando, em qualquer forma,
prossigam, sigam o desejo essencial, como fazem.
Andem pelos passos da poesia, mostrem aos outros
o outro lado da realidade mórbida da Animalia.
Hão de segui-los: outros ainda serão abençoados,
outros ainda descobrirão o mundo com olhos parecidos.
Ainda lhes serão gratos.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Conforme o escrito.

Escrever é viver
porque escrever também intimida.
Os sonhos intimidam.
As ruas intimidam.
Os olhos intimidam.
Os inconformados também.

Já fui conformado,
desconformei-me na intimidação
das palavras.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Poema da Contemplação.

Os que já doeram-se com a brusca ruptura
- do comum ao enigmático -
entregaram-se a contemplação dos tempos
e gestos que comprovam a harmonia universal.

Descobriram o outro direcionamento, o outro olho
por entre as vísceras da trivialidade:
pensaram a vida além do que lhes foi proposto.

A observação transformou-lhes a realidade, inquestionavelmente.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Breve compreensão.

A poesia diz o que quer
e quase sempre não se desculpa.
Mas não culpe o bem-intencionado sobre o papel:
as linhas já escritas não o pertencem desde o último ponto.
Culpe a transcendência,
ou a mensagem já recebida – a nova vida
que veio a se estabelecer
sobre os teus aposentos mentais.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Transmutação.

É certo que esmoreço às vezes e
que decomponho-me em face dos sonhos,
mas não pretendo – e não devo – justificar assim
meus desencantos, pois são estes
de outros cantos, de outros dizeres ásperos e curtos.
Apenas devo dizer da vida o que
pude eu viver enquanto ausentei-me
do atrito e, dentro do cometa,
alcei voo rumo ao que se diz ser,
inquestionavelmente, livre da imutabilidade.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Sobrevida.

Num cotidiano truncado e estacionário
reside o extraordinário abatedouro do indivíduo comum
e de lá resultam quase todas as formas de desencanto.


Mas pode haver flores – ou não.
Mas pode haver cores – ou não.
Mas pode haver dores...
Então diz ele: “Pois não!...”

A carne, outrora amaciada pelas utopias,
encontra-se carimbada pelas mesmas sentenças e agora
descobriu a liberdade na prateleira do supermercado.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

A lacuna dos meus sonhos.

Necessito saber de imediato, o que devo eu escrever
nestas linhas sem suporte, de modo a não ser visível
que definho sempre que ponho-me em memória de você.
E não tem o papel culpa alguma, pois ele está sobre as mãos
e não esboça nem um riso, a menos que eu arrisque contorna-lo.
Mas você, que agora não está sobre as mãos, esboça fardos de
um sorriso que não se ousa saber as mãos de quem o contorna.
*
Então, sou agora obrigado a cair para esta linha, ainda sem suporte,
porém, nem mesmo a liberdade poética pode compreender tal profundidade:
deixei na oitava linha um espaço onde há de caber o seu nome.
Sei que pareço, por isso, um estúpido com canetas esferográficas.
Mas assim, posso forçar-te a voltar mais vezes.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

O brigado.

Ao brigado
ficou obrigado que
dirá sempre “obrigado”
a todo corpo que lhe for útil.
Mas é ele brigado com o corpo que lhe deram
e não vê aos outros senão como cadáveres.
Porém não sabe ele o que é corpo,
desconhece anatomia e
rejeita qualquer gesto
obrigado.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Escombro social.

Sujeito estranho, ou aquele que não se diminuiu e
nem se aumentou em meio aos outros animais da cidade.
O barbado iludido, o sentinela que guarda rancores.
É ele o escombro, em qualquer passo e indagação;
a incógnita social mais odiada, porém, a legítima.
É ele o inverso do trivial, somado a mil e cem
maneiras de introspecção e observações
para além do proposto por lei. É ele. Ninguém mais.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Entusiasta.

Venho, com dor imensa, anunciar a morte de Elias, que
também nasceu para a estatística, pois era Elias, o Entusiasta:
propunha a popularização dos sonhos e a coletivização das ideias;
não era partidário, nem orador, mas “louco”, como o chamavam.
Mas os loucos dessa cidade são os que não compreenderam
a loucura de estar sempre errado perante as línguas-da-moral,
enquanto se vive quieto, na comunhão, apenas acrescentando
a si e aos demais. Por todo sempre e para sempre. Amém.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Cartões Postais (medonhos) da Cidade.

São muitos os malucos urbanos para os poucos muros de pedra e
agora, também são de pedra, os sonhos e os planos para o sábado.
Mas que droga! Meu pensamento tornou-se sólido e caiu, feito pedra e
os cantos deste lugar apodrecem sobre latas que não são de lixo.
A luz por certo não se meterá com lugares assim, tão frios e
tão urbanos, como qualquer praça ou esquina ou bairro da cidade.
Não conseguem, por muito tempo, fixar os olhos em nossas faces
que são magras e pálidas, estranhas e grosseiras, feito dor, feito pedra.


Fogo amigo.

A existência me parece estranha
e meu olho direito me parece torto.
Mas o que diz respeito ao ser mais próximo
e a tal profunda liberdade natural,
creio ser incompreensível que a pedra
alce voo das mãos medíocres
e colida-se com um dos outros, que são
por parte da espécie, irmãos de trincheira.

domingo, 25 de agosto de 2013

Erro crasso.

Não há solução poética para dor alguma.
Repito: não há solução poética para dor
e também não há suporte em lugar nenhum.
E o poeta, desacanhado, toma as dores alheias
e peca gravemente, pensando suportar os ombros.
Sem resposta alguma, nem paz. Nada, agora.
Deseja sair, mas está amordaçado
e seus goles de uísque escafederam-se:
está sóbrio.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Realismo grosseiro.

O poeta deve, se preciso, ser mal educado,
E dar ao pé do ouvido, outro tapa certeiro:
Deixemos os afagos para os domingos de tarde,
E nos debrucemos sobre os papelões nas calçadas.
E temos todo o tempo do mundo, mas o mundo,
Com o tempo cheio, precisa desocupar-se.

“Por que não?” Pergunta o poeta,
Sobre outro canto, mais quieto e despercebido:
Mas está desocupado.

sábado, 17 de agosto de 2013

Alcatéia.

Bem vinda ao teu sonho abafado, bela moça.
Se sente tão bem num mundo tão indiscreto,
Mal sabe que a maldade lhe espia contente,
E mora nos olhos de quem diz lhe bem querer.

Idolatra os lobos carniceiros que lhe caçam,
Entregando-lhes de bandeja a carne fresca.
Condena as ovelhas sensatas que lhe repudiam,
E diz, por estupidez, ter elas carne mal amada.

Mal amada é tu, bela moça, e não percebe.
Se acaba nas noites de alegria, iludida,
Nas patas tortas daqueles que lhe despedaçam.
Acha que o fardo, assim, há de ficar leve.

Orienta-te, bela moça, não se afogue.
Não são os traços mais vistosos que a alma:
Tanto te ilude com quem pouco lhe gosta,
Pouco te encanta com quem muito te ama.

Barbárie inédita.

Neandertal urbano, animal em tons de loucura:
O polegar revolucionário das primeiras mãos,
Em retaguarda, os outros quatro dedos furiosos.
A selvageria hereditária nas copas das árvores,
Da vida embebida de barbárie e instintiva.
São bem mais frias as casas de pedra na cidade,
As esquinas esquartejam a paz original.
A visão não é mais que medíocre, insossa,
Aos moldes do cifrão, sem escapatória.
A soberba cerebral da cachola tão crescida,
Ervilha expandida, o broto da pedra lascada.
A vida lascada agora, nos hospícios da cidade.
E o beco sem saída no crânio sobre o travesseiro:
Um fóssil estúpido e parasitário ao natural. 

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

A César o que é de César.

A graça do Primogênito unge as mãos do sacerdote,
Que a recebe como um relógio de bolso herdado do avô.
Tal é a mesma graça que unge as mãos do poeta,
Que a recebe como um relojoeiro perfeccionista, quase caduco.
Cabe a uns caçar e doutrinar as cabeças desamparadas,
Cabe a outros libertar e guiar as cabeças para qualquer outro lugar.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Brutal antipatia.

Duzentas criaturas bisonhas julgam o seu sapato,
Que era vermelho, mas agora é velho, encardido e inútil.
E nenhuma perna saudável se atreve a mover-se,
Seguir o rastro da sola e dividir o aperto do dia.
As bocas envelhecidas cospem sermões de ontem,
Mas nós já sabemos, e o sono não demora muito.

Poema do caos.

Recriar o caos é olhar para o próprio umbigo,
Molhar os olhos na saliva dos gritos desesperados,
Alimentar o verme da maçã proibida com o perdão.
Retalhar miúdos à golpes de travesseiros,
Enlatar mais um pescado do mar furioso.
Incendiar colchões em tempos de paz,
Proclamar a independência dos dementes.
Cantarolar canções de amor nas trincheiras,
Idolatrar um andarilho em sua embriaguez.
Entregar Judas aos macacos do zoológico.
Sapatear ao ritmo da selvageria humana,
Consumir as ideias da ilusão hereditária.
Enfeitar o corpo com lantejoulas de mentira,
Esboçar a intolerância que ocupa espaço demais.
Reconhecer que o elo perdido, a Esfinge, e o todo, é caos.

Uma breve nota sobre Horácio.

Horácio plantava sonhos no quintal de casa.
Suas ânsias de vômito ao atravessar o portão,
Já o diziam: a realidade perdera a graça.
Perdera, pois o jogava longe do âmago das coisas,
Sem conforto, nem esperança alguma; nada.
Preferia mil vezes aos sonhos do quintal.