Felipe Conti

Felipe Conti

sábado, 30 de novembro de 2013

Sonho de liberdade.

Regurgite-me
antes que o couro ruim
venha a ser
a carne
que não se mói
entre os seus dentes.

Enquanto é tempo
cuspa-me fora:
introduza
boca adentro
seus dedos tortos
que já me indicaram
para a guilhotina.

Embrulhe seu
estômago
nos toscos
papéis
que você
interpretou
lá fora.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Estouro espontâneo.

O peito esfola
mas não esmorece,
não é, caro par de olhos?

E as lágrimas pontiagudas,
enxuga-las?
Não se sabe...
Respingar-se
também sangra.

E a voz roubada,
retoma-la?

A voz explode
e descansa
teus estilhaços
perpétuos.

Mas não cessa.

Perdoem-me.
A voz já não cessa.

domingo, 17 de novembro de 2013

Poema-democracia.

O ajustado e o desajustado;
o corcunda e o ereto;
o confuso e o destemido;
o preto e o branco;
o beato e o herege:
o poema permite-os igualmente,
no mesmo arranjo.
O poema suporta a todos
e os leva ao mesmo encontro: o buraco – para lembra-los
que toda boca boceja quando tem sono.
E que os significados podem ser outros.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

O que tenho a dizer depois da fuga.

Os inquietos seres do centro da cidade
dizem coisas consumadas, aleatoriamente.
Mas, talvez, os amigos periféricos
queiram dizer coisas a mais.
Mas você não sabe:
você se esconde no outro hemisfério
desde criança, quando começou
a achar graça na massa de concreto.
Você nunca abandonou a Muralha
pois sempre te assombrou
o medo da vulnerabilidade.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Um grito aos camaradas.

Continuem cantando, em qualquer forma,
prossigam, sigam o desejo essencial, como fazem.
Andem pelos passos da poesia, mostrem aos outros
o outro lado da realidade mórbida da Animalia.
Hão de segui-los: outros ainda serão abençoados,
outros ainda descobrirão o mundo com olhos parecidos.
Ainda lhes serão gratos.