Felipe Conti

Felipe Conti

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Minha queda.

As vezes cabe encontrar-me no homem que habita meu centro;
não o genérico, mas o próprio espécime bruto e antigo.
Veja as paralisias desta forma urbana tão fria,
cansativo esplendor de graças em que débeis podem compactuar,
mas que se vê normal, absoluto, que não consigo nela enxergar a minha vez.
Teria eu errado alguns passos antes do encontro?
As instituições do homem contra a inconsistência do homem:
o seu natural arranjo cósmico de explicações das origens do Total
não se encaixam nessa agressão que a vida vazia de formas exerce nas cidades.
O irmão que tampa os próprios buracos com substâncias inválidas
– criações do homem para anular o homem –; aqueles que erram porque,
inocentemente, não souberam decifrar a ameaça, mas visível.
Tudo isso dói incessantemente e saber que nem todos compreenderiam,

significa, senão, um profundo desentendimento com a vida.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Do novo ao velho.

(A meu pai Paulo)


A velha farda de soldado magro,
o dicionário antigo com vestígios de saudade,
o recalcado chão de fábrica forrado a pó de ferro;
o ferro de solda e os fios flexíveis que, contudo,
às vezes, foram tão inflexíveis contigo:
você absolveu todos eles. Estão perdoados.
Você os libertou de suas formas frias,
e livres, todos eles puderam dizer: vencemos!
Porque precisaram, antes, das suas mãos e do seu engenho
e por amor foram transformados.
E você venceu. Você sabe que sim
e sabe que as tristezas de ser gente, sem corruptelas,valem a pena.
Mesmo que tenham tirado de você o tempo de ver os seus frutos crescerem,
hoje, os frutos já maduros, devem-lhe a vida e a maciez.
E quando os rios da sua vida erraram o curso, meu velho, você se atirou na correnteza,
molhou-se até o queixo e retirou-se com frio, com força.
E trouxe peixes.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Para o futuro.

O amor vence.
Mesmo que o poeta esteja torto
e o poema, fruto do tédio.
O amor vence e diz: nós contornaremos.
Quando olhos fitam-lhe com metafísica
sabes que o animal está vivo e pulsa.
Respira como quem quer saber o que se passa
nestes instantes em que se descobre a natureza.
O amor, meu caro; e quem não sabe da arma
não irá usá-la. O amor destrói
tudo aquilo que também destrói
e nos escombros, apenas uma chance de vida
longe do frio.