Felipe Conti

Felipe Conti

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Aos amigos de guerra.

Mortas as faces dos homens, resta admirar as construções por eles erguidas.
Mortas as construções, resta lamentar as margaridas rejeitadas, enquanto elas se embaraçam
no campo triste da rua inexistente. Estamos interrompidos. Meus soldados são os
espatifados que ocupam o campo: não querem guerra, não querem armas, não querem muros.
E os muros concretizam-se sobre a esfera: não podem passar.
As pontes rachadas e ligeiramente tortas: não podem passar.
A liberdade foge-nos de imediata surpresa, tão viva é sua incerteza;
e pelo que dizem as posições de cima, devemos agora retirar-nos da história.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Rua.

Por coisa inofensiva
lhe colocam arma na testa:
a rua vira festa assistida.
Não participo; me arranco daqui
pela porta da cara.
Traje inadequado para a valsa?
Minha
camisaexpressão minha.
Inadequado.
Não gosto da rua agora.
Não a amo mais.
Pronto.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Condição.

O homem que cantarola
gritadamente pela rua
o faz porque explodiu.
Descobriu que certas ferpas
são inacessíveis e eficientes.
Percebeu que os planos
para o ano são os mesmos há três:
explodiu.
Não insista. Não pode ser
de outra maneira que
não comporte uma explosão.
Ninguém lhe apresentará
artigo que diga: não inflame.
Cantarola porque explodiu.
Grita porque implodiu.
O restante não importa agora.
O que não explode
não pode ser.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Comunicado.

Espanta-me a urbanice das pessoas, sobretudo daquelas que não flutuam
e acabam por compactuarem-se com o desespero da normalidade.
Quanto àqueles que não aterrissam, pedimos que considerem o mal tempo
e nos sobrevoem sempre que puderem, mas com cautela de rato.
Porque quando derrocar a cidade, ultrajaremos o seio de pedra
para a sabotagem do século: cuspiremos palavras cuja necessidade
de dizê-las ultrapassa qualquer lançamento de granada em qualquer campo;
descobriremos a ansiedade que murcha as faces que andam. Mas dói;
tememos conhecer a vaidade elementar dos indivíduos e não suportá-la.  

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Rápida nota do dia.

O amor em si
não vence.
É abstração grosseira.
Mas os que se amam
abstraem-se daqui
grosseiramente.
E vencem.
Estes, sim, vencem.

Agradecimento aos ortograficamente descompromissados.

Obrigado você
que transcreveu em signos tão claros
o que foi falado e o que deveria ser entregue.
E foi entregue da maneira que foi falada pela boca
de modo a compreender tudo como foi, perfeitamente.
Cheira à confusão, mas perceba; é confirmação
de uma mensagem dita da maneira de quem a disse.
Ortografia corretíssima na figuração da fala
esconde atrás da folha a vida de quem falou.
Li como foi soada a palavra com o tom de voz
de quem a invocou e transformei-me nesta espécie de
contemplador das palavras – elas inteiras.
Importantíssimo: muito mais que eu e você,
muito mais que a própria letra
que isolada não tece nenhuma vontade.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Lições para a tarde de sempre.

O tempo é inalcançável. 
Não tente: não conseguirá você,
nem sozinho, nem com todos,
parar este moinho de vento
tão aleatório.
Fuja das confortações
distribuídas gratuitamente
e sem pudor.
Sinta a dor da percepção,
a dor de saber que nada pode.
Continue sem trapaças
e sem a maldita morfina.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Tentativa do pós-moderno.

Farei desta ilusão toda
uma ciência de método:
engatilhada a desesperada Teoria Suburbana,
recolherei as implicações das segundas-feiras e
experimentando insistentemente o erro de 
não me questionar sobre a epopeia humana,
resultarei fatos que caracterizam minha vida como comum
e o comum é o colosso deste lugar.
Imenso lugar. Imensa ciência.
Conceba meus motivos 
que agora repousam sobre a mesa grande e importante
e conclua a tese que explique o excesso de velocidade
destes navegantes.
Conclua-me.
Publique-me.
Crie-me na lista da existência.