Felipe Conti

Felipe Conti

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Breve poema dos dias de hoje.


Não levantarei a bandeira pátria,
nem a bandeira do partido que acolhe meus sonhos.
Louvarei apenas objetos de meu interesse único,
pois aprendi com os outros que meu umbigo é dourado.
Levantarei o meu braço apenas para aliviar as costas
daqueles a quem devo bajulação gratuitamente.
A verdade vem átona e,
depois de uns goles de gim-tônica,
finalmente ela desce à tona.
Vou ser egoísta, como sugeriu mamãe,
não emprestarei meus brinquedos,
não conversarei com estranhos da rua suja.
Ninguém mais.
Nada mais.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Retiro.

Voltarei para a roça.
Os pés na terra, as mãos em mim.
Vou voltar para a roça,
construir um sentido na roça.
Viver outra chance de elevação
sem que ninguém esmoreça
senão eu e meus gritos,
na confluência natural do carbono
que se deteriora e leva meu corpo.
Absolutamente natural.

Resisto agora ao citadino discurso,
a farsa que quer fixar-me no poste.
Eu não deixo.
Permaneço na hierofania da terra,
na gostosa ignorância de olhar
e retornar a mim, sem dor.
Na roça, sem perda ou ganho,
apenas vívido na simples construção
até que a terra lance um abraço.

sábado, 30 de julho de 2016

Tristeza nossa.

Se, quando noite, o poeta assiste a própria queda,
na madrugada, por afinidade, resolve sua cosmogonia.
Os cacos de vidro se reagrupam
enquanto outros ombros dizem: escreva mais e esqueça!
Iniciam-se as querelas da vida urbana.
Então a madrugada pode, com sua intromissão natural,
evidenciar toda a cidade; a quietude transborda em nós,
decifra e mostra a cidade jamais vista, que se esconde,
quando dia, nas agitações.
No cinza dominante a dor é livre, o amor não.
Nem o sutil símbolo da nossa vadiagem se salvou:
jaz o coreto da praça central, corolário da nossa imundice.
Como é triste.
E quem não pode com a madrugada,
simplesmente entra na roda e recomeça.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Papillon.

Fujamos das cidades!
Aqui os corpos são frios
com muletas frágeis que caem
expondo a farsa, ainda de pé.
Poucos se salvaram.
Não posso mais alçar a trama humana,
epopeia fabulosa que pretende recolher a todos
na ideia triunfal da resolução das coisas
do mundo.
Gasta-se grande parte do dia a fraquejar
a moldura, para que se possa romper
o contrato civilizacional e, finalmente,
dar-nos a chave mestra.
Mas recusam-se a abrir a porta.
Deixem que esperem!
Posso eu agora, mesmo que fatigado,
reagrupar todos os nichos e todas as cores,
todos dentro do meu chafariz.
E iludir-me docemente até a velhice,
até o final do fim.

terça-feira, 22 de março de 2016

Preâmbulo rural.

Fui ver o homem trabalhar a terra.
Calei-me, permaneci suspenso.
Fui ver e derroquei, senti a força ubíqua
e retornei ao exímio estado;
lugar onde as cidades e suas fraudes
limitam-se na prosa da boca.
Fui ver o homem da terra trabalhar a terra
e sua ciência é maior do que a novidade,
numa espécie de tristeza que se desfaz e refaz na malícia,
no manejo da matéria espessa: coisas que jamais compreenderei.
Fui ver a casa no meio, simples e pouca, convenci-me
que a cidade não venceria (porque eu sei, me usaram).
Por isso o silêncio.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Madrugal.

Catei um rumo na madrugada:
o escuriço que guarda em mim uma chance de esquecimento,
expõe em cores bem fitadas a desordem natural do beijo
e todas as consequências claras desta tragédia que é o homem.
Não mais me esquecerei da noite desta cidade
e enquanto puder, retornarei para esclarecer-me
em seus porres da bebida mais fértil, que se faz nos muros
(é preciso deixar o que já se sabe das palavras
e vir a tornar-se novo).
Visitei velhos amigos e disseram-me
que o mundo está diurno e não pode voar.
Quem pediu para sentir o abismo?
Quem pediu para procurar a chaga?
Que deixem-me morrer de poesia.

domingo, 6 de março de 2016

Insignificância.

Quando eu retornar para casa e deixar a rua,
tornarei a deixar a casa e envolver a rua e,
de tal modo, que digam-me quem são os homens,
o que são quando a luz esfria e a fagulha expande-se.
- Eles querem é o estalar frenético do maquinário e
a explosão nuclear de sensações repetitivas!
Então sou filho do medo na época dos homens conturbados:
o que sobra da vida depois da masmorra do tempo –
o tempo monumental tão visitado?
Tempo de sujeitos sem predicado. Iludiram-se.
Apenas sei que a roupa, ainda que desgastada e inútil,
continua no envolto porque o que desperta,
realmente, nunca esteve lá fora.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Minha queda.

As vezes cabe encontrar-me no homem que habita meu centro;
não o genérico, mas o próprio espécime bruto e antigo.
Veja as paralisias desta forma urbana tão fria,
cansativo esplendor de graças em que débeis podem compactuar,
mas que se vê normal, absoluto, que não consigo nela enxergar a minha vez.
Teria eu errado alguns passos antes do encontro?
As instituições do homem contra a inconsistência do homem:
o seu natural arranjo cósmico de explicações das origens do Total
não se encaixam nessa agressão que a vida vazia de formas exerce nas cidades.
O irmão que tampa os próprios buracos com substâncias inválidas
– criações do homem para anular o homem –; aqueles que erram porque,
inocentemente, não souberam decifrar a ameaça, mas visível.
Tudo isso dói incessantemente e saber que nem todos compreenderiam,

significa, senão, um profundo desentendimento com a vida.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Do novo ao velho.

(A meu pai Paulo)


A velha farda de soldado magro,
o dicionário antigo com vestígios de saudade,
o recalcado chão de fábrica forrado a pó de ferro;
o ferro de solda e os fios flexíveis que, contudo,
às vezes, foram tão inflexíveis contigo:
você absolveu todos eles. Estão perdoados.
Você os libertou de suas formas frias,
e livres, todos eles puderam dizer: vencemos!
Porque precisaram, antes, das suas mãos e do seu engenho
e por amor foram transformados.
E você venceu. Você sabe que sim
e sabe que as tristezas de ser gente, sem corruptelas,valem a pena.
Mesmo que tenham tirado de você o tempo de ver os seus frutos crescerem,
hoje, os frutos já maduros, devem-lhe a vida e a maciez.
E quando os rios da sua vida erraram o curso, meu velho, você se atirou na correnteza,
molhou-se até o queixo e retirou-se com frio, com força.
E trouxe peixes.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Para o futuro.

O amor vence.
Mesmo que o poeta esteja torto
e o poema, fruto do tédio.
O amor vence e diz: nós contornaremos.
Quando olhos fitam-lhe com metafísica
sabes que o animal está vivo e pulsa.
Respira como quem quer saber o que se passa
nestes instantes em que se descobre a natureza.
O amor, meu caro; e quem não sabe da arma
não irá usá-la. O amor destrói
tudo aquilo que também destrói
e nos escombros, apenas uma chance de vida
longe do frio.

domingo, 31 de janeiro de 2016

Recuo.

Recuou as letras.
Preferiu rearrumar os papéis para o tédio urbano,
para a vida urbana, sem entonação nem beira.
Pôs os pés na rua.
Ruas de tráfego alterado, homens alterados de diesel,
de insolubilidades do meio.
O que desejam as pernas nessas condições?
Tempo frio na fronteira entre os braços que, quando dia,
contorcem-se buscando solução para tamanho problema,
interminável problema do homem: aquilo que ainda não veio,
o que ainda não tem forma.
Está vestido de roupas que não lhe cabem na mala,
no corpo, na sapiência, no orçamento. Na ciência também não.
Recuou as letras para não retrucar com pedras, que doem muito mais.
A incompatibilidade nos tornou animais, caro espécime.
Sigamos em frente, já que poucos se arrumam e se distorcem

a fim de encontrar o que realmente pulsa.

domingo, 24 de janeiro de 2016

Básico.

Olhos quando falam, a boca:
partes essenciais de um todo volumoso
dos seus planetas, da sua galáxia rígida,
mas que se pode andar, mesmo com a expansão 
dos braços, pernas, destes convites inconscientes.
Convites extraterrenos, onde a gravidade foge:
a gravidade deste nosso envolvimento tão circular
entre os corpos. Veja os nossos corpos e
o espaço ocupado pela incessante vontade
de orbitar contigo, juntos, nesta incerteza.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Centrífuga.

Amanhã centrifugarei você – plano novo.
Amanhã: fora do centro, fora da boca,
fora do ponto referencial do tempo de viajar.
Em algum momento queria e agora tem
toda a fonte de aniquilação de planos conjuntos,
de panos conjuntos, todos dentro de um quarto.
A tragédia social refletiu-se na tragédia do amor, meu bem.
Estamos partindo hoje, eu e minha vontade de escapar

do engano, da morte viva, da incompreensão.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Ato de ausência.

Os gestos animais perpetuam-se
e segue a guerra escancarando a barbárie:
é dela a sentença da fuga. 
Fogem por não saber lidar com a carga –
conjunto de pedras e colares vexaminosos
em bolsas amareladas de tempo.
O anoitecer é belo se acompanhado da
extinta capacidade de se ausentar da ideia
de progressão dos modernos homens.
Queria profundeza, fui-me para a janela.
Talvez não houvessem tantos problemas
se a máquina da razão usurpasse de si mesma
suas mentiras de veludo.
Por esses dias descansarei meu corpo
em retaguarda, caso queiram levar-me.
Vou variando pela rua.
Apenas hoje aceitarei a íngreme curva dos barrancos,
as pontes de ferro e de tráfegos insensíveis,
a intimação do tempo que exige arranque.
Não levarei ao ringue mais um irmão,
nem mais uma fagulha de obrigatoriedade.
Estagnar-me-ei de toda vontade.
Ouvirei os pejorativos que injustamente
caçam os trabalhadores injustiçados.
Deixo a chuva de completa
conformidade e permito que
inunde toda cadeia de produtividade
por metro quadrado.
Agora estou fora.

domingo, 11 de outubro de 2015

Sonolência.

Atravessaremos a noite, disso precisamos.
A manifestação fantástica do silêncio
afim de redimir-se das criações dos homens
e das formas cansativas de comportamento.
Tudo isso é noite, este sombreamento
que vale o tempo, se visto como facetas
da tropa estelar. E brigam com os olhos.
Atravessaremos a noite porque o dia
apresenta-nos pessoas que não querem ficar.
Não saberemos lidar com a situação.

sábado, 3 de outubro de 2015

O contra gosto.

Surge na contra vontade o dia firme
e a poesia leva aos homens um respingo
do que se pode eleger de grandiosidade.
Ou não.
Surge nas ruas a inatividade do juízo
enquanto coerentes perguntam se merecem
o peso de uma noite sem o cansaço.
O fervilho da noite pode esperar pelos seus
amigos que voam e pairam. Esqueléticos.
Que pena.
E os medianos sempre elegeram os motivos errados
e consolaram-se nessa primitividade
desse nomadismo das palavras – decoradas.

Não durmamos hoje.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Antimoral.

Esqueçam das cabeças que vigiam os corpos
e enquanto puderem, vagueiem pelas ruas.
E de noite. Façam de proposital motivo de vida.
A noite não é morte, a madrugada não faleceu o homem
que soube andar segundo o que disse o respeito.
Quem dera fossem olhos de cooperação
mas são olhos de armas a disparar projéteis inúteis.
Esta turma estranha: o Zé Povo. Estão por vir. Ainda não vieram,
estão detidos em suas casas, falando apenas o desnecessário.
Só não se esqueçam do fogo e da carabina
que outrora já lançava sobre os homens os seus próprios irmãos.
Sejam todos criadores da vida idealmente humana.


quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Noctívago.

Madrugada é para os explodidos da bomba
porque eles a compreendem e permanecem ilesos.
Erga seus ombros e suscitará na rua lisa
toda esta situação fantástica do silêncio e da ausência.
Deve-se falar na hora certa e com a comunhão do grupo
completa-se o envolvimento com algo muito maior
que arrebata-nos do chão quando sintonizamos a grande onda.
Onda que segue rente ao inimaginável.
Segue a madrugada e com ela, congelando na prosa
artefatos da vida, a simplicidade da noite na comunicação
daqueles que preferiram ausentar-se da quentura da cama.
Agora tudo segue a vida e deixa que a ausência das vozes
configure um novo olhar sobre a noite.
A lua insiste e eu, noctívago, desperto-me para a calmaria
desta cidade tão mortal onde os indivíduos se perdem
e se encontram para dar frequência a um lugar qualquer.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Precipitação.

O morador da rua é a metáfora do anti-amanhã.
Termo que não existe; agora eu o proclamo
para explicar certa desistência.
Vi camaradas expostos nas ruas.
O amanhã não se abriu, impactou-se.
O amanhã assim não vigorou, deixou meus irmãos para trás
na boca dos lobos carniceiros de cidade pequena.

A precipitação se inicia na rua de trás e nas outras,
a vida segue e a cabeça caduca na lua.
Na rua de trás e nas outras mil da cidade.
Tudo tão repetitivo como o belo ciclo
da bela vida social daqueles que sentem
a necessidade de descartar seu exemplar
para a segurança do inimigo moralista.

domingo, 12 de julho de 2015

Elegia a Itajubá.

Itajubá triunfa abaixo das pedras onde outrora venciam as águas.
Para onde foram? A madrugada estabeleceu-se com as ruas ausentes de indivíduos:
elas mostraram maior compreensão sem que precisasse dizer algum registro de número.
Trafego nessas ruas de conhecidas, queridas silhuetas, inflamo meu motivo
e desmorono nas esquinas dos olhares taquigráficos que duvidam de mim,
logo eu que sou filho teu, que em tempos de guerra ergueria braços que ergueriam barricadas
em detrimento de outras forças que jamais poderiam contigo, Itajubá.
O inimigo não teria chance mesmo que a fábrica de armas fosse vítima do acaso ogival.
Que a cidade de sempre não se curve aos corcundas que excederam o umbigo
e são visíveis quando dia; no centro da cidade algumas latas de conserva guiam os autos
enquanto outros – que não moralizam – comunicam-se e evoluem.
Itajubá, saberá você guiar-se quando te esgotarem de um pensamento que já foi?