Felipe Conti

Felipe Conti

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Madrugada de fatos.

Escute o que digo: o poeta vai perder a vida no papel.
Quando o início e o fim encontram-se
a vida se explica em poucas cenas,
poucas palavras, poucos abajures
que venham a iluminar a entrada da casa
que também pode ser saída por motivo de hora.
É que o Colibri voa tão perto da água
e percebo que ele a compreende por muito;
deixem que os indivíduos da cidade voem
para perto da cegueira e do amor.
Não deixem que morram na água.
Aqueles homens que moram embaixo do chapéu
são tão frios que a noite não pode vencê-los.
Na cidade dos loucos ninguém tem gosto de leite,
alguns possuem suas metáforas para manterem-se
mas caem no momento em que um outro elemento
se eleva e toma-lhes a luneta.

terça-feira, 16 de junho de 2015

Carta aos bem-comportados do país.

Vou dizer: talvez um dia vocês esqueçam a ventania
e venham a falar das coisas que aprenderam.
Que me prendam.
Também quero ser poeta, também quero
a vacina contra a incerteza certa.
Tão espatifado: não me encaixo em mãos;
ocupo vagas que não vivo e caio fora.
Situo-me longe das bordas do admissível e
aqueles que entendem a psicologia irão
sentenciar-me porque também precisam trabalhar.
Compreenderei melhor quando ocupar-me
de um tempo que possa chamar de meu e para mim.
Vocês que são lúcidos deveriam mesmo
é banir-me da sociedade.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Animal cinza.

É porque ele necessita envolver-se
com o todo e com o tudo que o atormenta
até que venha a tentar explicações.
É por isso que é extraordinário
este animal que habita as casas,
petulante como um anzol que fisga
o peixe que de nada sabe da vida.
Cancelemos por imediato
qualquer intervenção que não venha da alma.
O animal precisa orientar-se na vida
para que os outros não lhe percam
e seu direito à própria perdição

é negado no globo.

sábado, 13 de junho de 2015

Poema da ausência.

Fui embora: oração de sujeito simples e simplesmente louco
porque sabe que foi mesmo é doer-se bem longe. Cantos frios.
Cantigas de amor não funcionam agora não.
Por hoje não escreverei poemas de despedida
e se de tal forma fossem, refletiriam inacreditavelmente
esses dias desses últimos meses de ausência irreparável.
Estou entre ir para ver a permanência da vida
ou ficar para pegar o bonde que andando distrai os olhos.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Escapulice.

Queria eu acordar vivo na roça.
Puxar meu freio de mão na roça,
esquecer a tão louvada civilização
da cidade que não citarei no papel
e deixar a fumaça densa do combustível
ser tomada de mato e terra vermelha.
A cidade recheada de pasmo – rio
sujo que não pode dar atenção
a quem quer que passe andando –
acabará em definitivo na memória?
Plantar meu som na roça e
ouvir de mim o que quero dizer
sem qualquer medo de erro do método.
Grande erro do método.
Plantar você na roça e com
a nossa escapulice, ter a liberdade

de separar o que não é bom.

domingo, 7 de junho de 2015

Está frio.

Num sábado tão lúcido
posso entrelaçar-me a uma foto que lança um rosto 
e com uma delas quebrar o gelo da água.
Gelo duro que insiste em deslizar a mão e o não.
Bom assim saber de motivo
para dançar na rua da noite, quando cessa
a luz tradicional da cidade – um sapato frouxo
que não canse os pés que dançarão
com uma certeza bem maior que a crise do homem.
Os sujeitos da cidade se matam e eu sigo o contorno;
duzentos mil passos e vejo: não entenderam
o amor como resultado da dúvida. 
Certezas demais aniquilaram os esclarecidos.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Da ruralidade.

Tua face e tua armadilha bucal.
Tua boca rural, dessas de se beijar
em profundidade de gotas de orvalho e cheiro de terra
bem trabalhada feito o gosto da boca bem trabalhada.
Quero ir para o campo.
Temendo pelo regresso cá estou entre os urbanóides e
que triste fim foi o meu na selva de pedra.
Lamento: ainda não cheguei a tamanha ruralidade.
Mas as raridades voltaram, meu amor.
Em algum momento precisarei ausentar-me
das trincheiras e motos de barricadas e
ir a este rural encontro da vida.
Cairei na tua vala propositalmente e não morrerei.

Cuidarás de mim.