Felipe Conti

Felipe Conti

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Pós-tortura.

Usemos o tripalium descaradamente e sem medida
pois é esta a lei suprema do indivíduo supremo
que por estes nossos tempos habita a maior parte.
Usemos para além o tempo desapropriado,
o termo inapropriado, a voz de trovão
(que possui paciência na espera), os palavreados de sofisticação,
os abajures de couro e demais delitos de uso próprio do animal.
Pensaremos, nós, além dessas trivialidades
apenas nos momentos da vaca magra:
quando gorda o abate permanece,
e desde sempre – o procedimento padrão.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

A negreza da terra.

O café, bruto que é, impulsa minh'alma
qual os negros nossos, ancestrais
que ergueram este lugar.
Sofreram; e digo: também sofro,
sou feito de remorso e perdas lastimáveis.
Mas sei cantar canções que ecoam em torno
do sagrado dom de ser negro n'alma.

O café, preto que é, introjeta
esta negrura abundante que
me enche da riqueza incomparável
e remete ao berço continental
onde este espécime bípede, cujas mãos
impulsionaram a natureza;
também foram estas mãos
ao cárcere humilhadas pelo
tom pálido que cospe
o fogo dolorido de um pedestal
forjado.

Que dor eu sinto.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Noviça ciência.

Engrandecidos os homens, grandes acadêmicos;
mas que interpretam sob um mesmo brilho 
o fosco e o metálico, conquanto que, por sorte, 
encontre alguém que revele a gritante diferença
numa mesma cor.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Lotus.

(Para Ayrton Senna)

A voz rouca inunda a continuidade do espaço
e segue ligeira, rasgando a dúvida insensível
de quem duvida estar frente a máquina.
A imponente máquina negra que alto fala;
do tempo ela fala, das curvas e das bandeiras
ela fala. Fala e traduz em fortaleza
toda a significância proposital de correr.
Rápido muda o ritmo, segue bravamente.
Mas que entre esses tempos da máquina bruta
um som que explode leva no rastro
uma outra forma, estática, que permanece na alma.


segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Notícias de lá.

O poeta está à margem – sim.
Mesmo que tranquilo seja
o terceiro bolso da roupa;
mesmo que as bordas sejam
levemente flutuantes,
ele estende-se à margem.
Da margem calcula o centro nítido
e com ele comunga – espécie
de sacrifício – com o mundo ele comunga.
E se despe.
A margem.
Ele a observa como o
corpo observou o calvário;
como o metal observa o caol.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Barbearia.

A barba – este pêlo maciço – 
tomou o rosto macio
e trouxe o maduro.
Mas
continua em desenho
o garoto.
Continua a silhueta do garoto.
Continua o riso do garoto.
Continua a malícia do garoto.
O exagero do garoto continua
no rosto.
Entre a face há sentinelas
em profundas trincheiras
que indicam, ao menor sinal,
a situação da tranquilidade.
Eu descobri.
É este o ponto referencial
de seu rosto:
a tranquilidade.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

A barriga.

A flacidez da barriga imita
a instabilidade do dia, que existe
e encerra-se em lugares de se escorar
que ofereçam boa gestão das culpas.
A barriga tenta (e consegue)
ludibriar a camisa branca
e acompanhar o desfecho do corpo
evitando um possível remorso
quando o todo é estático.
A barriga se apossa das horas,
do espaço; em tempos difíceis
transmuta-se: travesseiro.