Felipe Conti

Felipe Conti

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Não.

Não professarei lugares sagrados: meu tempo é tempo comum
desses de trafegar em milhões para que se cumpram ordens anteriores à existência.
Borboletarei pelas vias apenas enquanto permaneça claro o que se passa 
sobre o seio da vida urbanóide, que jamais busca a calma.
Dizem ser a criatura a imagem do Extraordinário, mas visto que anda-se
nas ruas travando guerras mentais, tropeçando em cima de outros,
chutando o vento e recitando aleatoriamente a bula, descubro a contradição desses dias.
Urbanóides comentam a existência de compressas quentes, sem mesmo ousar estancar 
o sangue que jorra, porquanto a água que borra a pintura permanece.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Guerra entre móveis.

Me erra, me acerta, me ergue e proclama o fogo amigo.
Após o primeiro comando da sala oficial
me enche de gestos e longas palavras de guerra.
Eu e minha esculachada bandeira branca
de papel crepom: mas quero guerra.
Eu quero guerra.
Ensanguentamo-nos no front..
Eu o soldado raso; você no comando da geografia e
por consolo uma condecoração: um beijo.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Pós-tortura.

Usemos o tripalium descaradamente e sem medida
pois é esta a lei suprema do indivíduo supremo
que por estes nossos tempos habita a maior parte.
Usemos para além o tempo desapropriado,
o termo inapropriado, a voz de trovão
(que possui paciência na espera), os palavreados de sofisticação,
os abajures de couro e demais delitos de uso próprio do animal.
Pensaremos, nós, além dessas trivialidades
apenas nos momentos da vaca magra:
quando gorda o abate permanece,
e desde sempre – o procedimento padrão.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

A negreza da terra.

O café, bruto que é, impulsa minh'alma
qual os negros nossos, ancestrais
que ergueram este lugar.
Sofreram; e digo: também sofro,
sou feito de remorso e perdas lastimáveis.
Mas sei cantar canções que ecoam em torno
do sagrado dom de ser negro n'alma.

O café, preto que é, introjeta
esta negrura abundante que
me enche da riqueza incomparável
e remete ao berço continental
onde este espécime bípede, cujas mãos
impulsionaram a natureza;
também foram estas mãos
ao cárcere humilhadas pelo
tom pálido que cospe
o fogo dolorido de um pedestal
forjado.

Que dor eu sinto.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Noviça ciência.

Engrandecidos os homens, grandes acadêmicos;
mas que interpretam sob um mesmo brilho 
o fosco e o metálico, conquanto que, por sorte, 
encontre alguém que revele a gritante diferença
numa mesma cor.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Lotus.

(Para Ayrton Senna)

A voz rouca inunda a continuidade do espaço
e segue ligeira, rasgando a dúvida insensível
de quem duvida estar frente a máquina.
A imponente máquina negra que alto fala;
do tempo ela fala, das curvas e das bandeiras
ela fala. Fala e traduz em fortaleza
toda a significância proposital de correr.
Rápido muda o ritmo, segue bravamente.
Mas que entre esses tempos da máquina bruta
um som que explode leva no rastro
uma outra forma, estática, que permanece na alma.


segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Notícias de lá.

O poeta está à margem – sim.
Mesmo que tranquilo seja
o terceiro bolso da roupa;
mesmo que as bordas sejam
levemente flutuantes,
ele estende-se à margem.
Da margem calcula o centro nítido
e com ele comunga – espécie
de sacrifício – com o mundo ele comunga.
E se despe.
A margem.
Ele a observa como o
corpo observou o calvário;
como o metal observa o caol.