Felipe Conti

Felipe Conti

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Noviça ciência.

Engrandecidos os homens, grandes acadêmicos;
mas que interpretam sob um mesmo brilho 
o fosco e o metálico, conquanto que, por sorte, 
encontre alguém que revele a gritante diferença
numa mesma cor.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Lotus.

(Para Ayrton Senna)

A voz rouca inunda a continuidade do espaço
e segue ligeira, rasgando a dúvida insensível
de quem duvida estar frente a máquina.
A imponente máquina negra que alto fala;
do tempo ela fala, das curvas e das bandeiras
ela fala. Fala e traduz em fortaleza
toda a significância proposital de correr.
Rápido muda o ritmo, segue bravamente.
Mas que entre esses tempos da máquina bruta
um som que explode leva no rastro
uma outra forma, estática, que permanece na alma.


segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Notícias de lá.

O poeta está à margem – sim.
Mesmo que tranquilo seja
o terceiro bolso da roupa;
mesmo que as bordas sejam
levemente flutuantes,
ele estende-se à margem.
Da margem calcula o centro nítido
e com ele comunga – espécie
de sacrifício – com o mundo ele comunga.
E se despe.
A margem.
Ele a observa como o
corpo observou o calvário;
como o metal observa o caol.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Barbearia.

A barba – este pêlo maciço – 
tomou o rosto macio
e trouxe o maduro.
Mas
continua em desenho
o garoto.
Continua a silhueta do garoto.
Continua o riso do garoto.
Continua a malícia do garoto.
O exagero do garoto continua
no rosto.
Entre a face há sentinelas
em profundas trincheiras
que indicam, ao menor sinal,
a situação da tranquilidade.
Eu descobri.
É este o ponto referencial
de seu rosto:
a tranquilidade.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

A barriga.

A flacidez da barriga imita
a instabilidade do dia, que existe
e encerra-se em lugares de se escorar
que ofereçam boa gestão das culpas.
A barriga tenta (e consegue)
ludibriar a camisa branca
e acompanhar o desfecho do corpo
evitando um possível remorso
quando o todo é estático.
A barriga se apossa das horas,
do espaço; em tempos difíceis
transmuta-se: travesseiro.


quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Do erro.

Humanizou os símbolos errados.
Agora
deve levantar-se pela manhã
e beijar um mundo
faminto de signos.
Humano é o vidro, o espelho, o espectro,
o teto, o cansaço, a calçada; humanas são as casas.
Essas casas maravilhosas
onde derramou-se pelas paredes;
e as gotas, aglomeradas e frias,
suicidaram-se saltando do copo - embora insistisse na permanência.
A noite errou.

domingo, 19 de outubro de 2014

Cinza-fumaça.

Cidade-cinza,
cidade-fumaça
ou qualquer outra intenção
que exalte este cinza fosco na vidraça,
como faz esta cidade tão linda,
que hoje recebe em pasmo
as cores de um cinza-sem-graça.