Felipe Conti

Felipe Conti

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Não-amor.

Voe, voe pássaro do amor.
Não podem mais permanecer aqui 
essas asas que querem cobrir toda a poesia;
deixe-nos escrever também sobre
as ásperas atitudes que cercam
o pobre e grande itinerário humano.
Posso sim levantar a marca do não-amor
e levar o oposto apenas a quem vier com tranquilidade.
Mas não mais me tomará o tempo de um dia inteiro?
Assim espera-se até que venha a falhar novamente.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Desequilibrista.

Observe a finita corda íngreme
que estende-se daqui ao lado cinza da borda:
sobre ela cambalearei recitando nomes
que amei durante o desequilíbrio;
porque um desequilibrista experiente
nunca sabe a hora de retroceder.
Sabe ele que certas perguntas
quebram o protocolo de segurança
e o colocam à beira da incerteza.
Ainda é possível prever minúsculos
detalhes do precipício, mas é em vã utilidade.
Desequilibristas e seus dias monofásicos: um erro
ou um acerto de contas? Saindo pela porta,
ainda consigo situar-me nesta cidade
mas não é exatamente isso o que eu quero saber.


segunda-feira, 4 de maio de 2015

O terceiro dia.

Me disse, você, que eu ficaria em maus lençóis sem o seu itinerário
mas fui removido propositalmente e com isso permaneço com a glória de meu nome.
Acredite: de manhã as cores ainda se apresentam em espetáculo;
acredita-se, por essas bandas daqui, que o humano é bom
quando a veia alterada pula no braço e do braço para a própria vida.
Não justifiquei minhas pernas com a distância geográfica
e detectei a existência de coisas bem maiores que o chão.
Você não compreendeu e deixou-se levar por números de marcação.
Ainda vivo, apesar de estranhar minha época, a minha maravilha: descobri que posso.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Poema mínimo.

Fui trocado.
Este desencaixe pode encaixar-se
em outras formas além do amor?
A água do chuveiro retira o óleo
mas mantém os olhos no lugar.
O corpo limpo e nada a dizer.
A pior dor ainda é a urgência.

Sobre o que vi ontem.

Os sujeitos amam a truculência das máquinas;
eu confesso a incidência de precisar esperar
até que alguém com pernas suspensas venha atingir-me.
Poderiam ter ouvido-me antes, porém eu estava vivo.
Mas a voz das máquinas eles bem ouvem.

É que existem perguntas miúdas de respostas cumpridas
e ligeiramente são feitas em lugares de rápida abordagem.
É assim mesmo porque nem todos podem esperar;
eu insisto, espero e perco pontos em jogos de gente grande.

Criam-se sentimentos que não combinam com
este estado atual da vida atual,
que não se envolvem com o que foi feito
nem com o que deve ser feito.
Sei que não lhe trará conforto algum,
mas é isso: vá embora.

sábado, 18 de abril de 2015

Ana e os robóticos.

O motorista do ônibus
alcança velocidade alta.
Ana e os robóticos
no primeiro banco à direita;
e ela ainda mal sabe
que também será
se não frear.
O masoquista do ônibus
alcança a dor da falta.
Ana e os protótipos
na primeira curva à direita;
e ela ainda mal sabe
que também virá
se não parar.
Ana, pare o ônibus
e vá ver animais
que ao menos
perguntam o dia do mês.
Pare o ônibus e diga-lhes:
irei mais longe.

sábado, 11 de abril de 2015

À jornalista.

Caso a vida me confunda,
direi que planto bananeiras
para ver bananas maduras.
E de tão esclarecidas,
caem sozinhas e penetram o chão.
Desaparecem.
Mas vou logo embora.
Devo correr paralelo aos
indivíduos do meu tempo -
deveria aprecia-los;
não acompanha-los seria
erro fatal desta minha época.