Felipe Conti

Felipe Conti

domingo, 14 de setembro de 2014

O que tenho a dizer, quarta-feira.

Do quarto eu reparo:
o apito do trem devora a cidade. 
As pessoas devoram as calçadas
sem qualquer contestamento.
As calçadas devoram o tempo
que as pernas gastam para
percorrer a ansiedade
(essa coisa que dói).
Enquanto reparo, o tempo devora
esta quarta-feira tão minha,
com a gula desnecessária.
O tempo devora pessoas.

Bate-estacas.

O indivíduo comum é o bate-estacas social.
O bate-estacas penetra a estaca no chão
para que se edifique algo bem maior.
Chão adentro vão as atenções do dia,
o motivo do dia está também adentro.
Enquanto bate a estaca, o bate-estacas
observa o mundo que constrói em posse de outros.
E o seu barulho – dizem – é desnecessário.

O indivíduo comum vive esta mesma lamentação.

domingo, 3 de agosto de 2014

O olho no mundo.

Ah, essas águas que caem sobre as pedras.
Essas pedras. As águas novamente.
Todo esse caos me decompõe quieto e transcendente
em meu lugar de surgir, em minha truculência
de indivíduo social; minha debilidade
de animal, que anseia a não-brutalidade no tempo.
Eu, aqui, na tentativa de engatilhar a resposta
caso haja guerra entre os homens deste lugar.
Os estagnados pensam prosperar na
continuidade desses fatos que buscam o
Desnecessário Futebol Clube. Time de várzea.
A várzea dos falsos profetas da cidade.
Mas a resposta não há, quem conciliará o Universal?
Essa constância dos dias, tão estúpida, eu digo que
tenho minha inutilidade: jamais peguei em armas
e me pego correndo fora desta arbitrariedade cultivada.
Aprendi na dor: os que bebem e gritam pela rua à noite
não pertencem à espécie da mesquinhez aguda.
Apenas aqueles que colonizam e não acrescentam
opinião alguma, sobre coisa alguma.

sábado, 5 de julho de 2014

Especificidade humana.

Com esforço, seus braços alcançam as definições necessárias
e suas guerras locais travam-se para que alguém possa brotar
e dizer-lhe: a limitação, amigo: a limitação da espécie.
O dia é limitado, agora, quando tentas buscar
sentido nas faces que inventas na parede do quarto.
De onde vieram? Não sabes; tuas dúvidas são cólicas mentais.
Então, ausenta-te das dores. Desapercebe o tempo.
O limite estende-se do calcanhar até a primeira dúvida insistente
e de lá partem, simultaneamente, todas as brutalidades da vida.


domingo, 8 de junho de 2014

Sobre a cafeína.

Domingo
depois das 5 badaladas
pós-meridiano:
eu, sentado na beira
dos pensamentos de veneta.

Domingo
depois das 5 xícaras
pós-melodiando:
eu, paralelo à mesa
e os pensamentos no papel.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Ritual.

Repito as roupas
dos dias felizes
tentando reimplantar,
(sob forte pressão arterial),
a estabilidade facial:
um sorriso.

Mas é em vão.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Suporta-te.

Viver sem suportar-se não é vida,
por mais que se viva, então,
por mais que se diga:
minhas pernas suportam-me!

Você que suporta-se nos ombros de vento:
verá nos outros somente os vendavais e
não verá a real elevação,
tão necessária, tão tangencial;
espiará somente o mundo das faces.

Você que suporta-se nos ombros perecíveis:
possui dedos que perecem ao fim do dia.
A cama está quente, mas sobre ela, apenas
mais um corpo. Nada mais, tudo bem menos.
As expectativas de plástico esmorecem ao travesseiro.

Você que não suporta: tão pouco eu suporto.
Mas nossos ombros juntos, se agrupam
mesmo que não nos cruzemos
nas ruas do nosso país; imenso país.

O mundo não é submundo e
esse teu ópio não lhe faz ser, assim, profundo.
É você que não se importa.
Você insiste, então, fecha a porta.
É você que não suporta.
A mão que escreve está morta.
Já não toca mais a terra
nem a descreve mais.