Felipe Conti

Felipe Conti

terça-feira, 13 de maio de 2014

Suporta-te.

Viver sem suportar-se não é vida,
por mais que se viva, então,
por mais que se diga:
minhas pernas suportam-me!

Você que suporta-se nos ombros de vento:
verá nos outros somente os vendavais e
não verá a real elevação,
tão necessária, tão tangencial;
espiará somente o mundo das faces.

Você que suporta-se nos ombros perecíveis:
possui dedos que perecem ao fim do dia.
A cama está quente, mas sobre ela, apenas
mais um corpo. Nada mais, tudo bem menos.
As expectativas de plástico esmorecem ao travesseiro.

Você que não suporta: tão pouco eu suporto.
Mas nossos ombros juntos, se agrupam
mesmo que não nos cruzemos
nas ruas do nosso país; imenso país.

O mundo não é submundo e
esse teu ópio não lhe faz ser, assim, profundo.
É você que não se importa.
Você insiste, então, fecha a porta.
É você que não suporta.
A mão que escreve está morta.
Já não toca mais a terra
nem a descreve mais.

domingo, 30 de março de 2014

Oito linhas urbanas.

Pelas ruas,
expressões faciais encerram
o início das observações
meramente ilustrativas:
alguns riem, outros roubam
um pouco mais da própria vida
enquanto os encarregados da mudança
procuram a válvula anti-estagnação.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Subúrbio da Silva.

Andava pela cidade, com o peito aberto,
o Senhor Subúrbio:
escancarava o rosto periférico,
transitando através das bordas.
Sempre cantarolando a canção da fronteira,
os versos que desconhecem normas gramaticais.

Subúrbio não é normal.

Estaca social.

O preço a se pagar
pela estagnação
dos seus dias
é inabilitar-se a
perceber a ferrugem
cerebral; e nos
olhos, apenas
mais um esboço
da incapacidade:
nada completo,
nada de afeto,
nada discreto.
E nada concreto.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Poema intervencionista.

Democracia pura,
pura Democracia;
de dia me aprecia,
de noite me perfura.

Pura Democracia,
Democracia pura;
de dia me procura,
de noite me espia.

Democracia pura,
pura Democracia;
teu corpo não segura,
as pernas com anemia.

Para que noite? Para
que dia? Democracia
pura. A puta
Democracia que
perdura.

Democracia pura,
puta Democracia;
em teu ventre já nascia
a ditadura com açúcar.

Pura Democracia
Democracia puta;
a minha carne é dura,
meu salário é demagogia.

Puta Democracia
Democracia pura;
a chula força bruta,
a droga que vicia.

Para que nascia? Para
que açúcar? Democracia
puta. A pura
Democracia que
alicia.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Poema para Maria Joana.

O que pensei ser a brisa distorcida
me foi revelada como introspecção.
Me vejo nítido, logo, me conheço nítido;
apenas os questionamentos fieis
não se destroem em meio a claridade.

O que cogitei ser a brisa distorcida
me foi realizada como imaginação.
Posso tocar o sentido mais próximo
sem orientar-me na realidade
amorfa e visivelmente estúpida.

Impulso propulsor.

Que se iniciem os poemas de guerra:
que as pontas dos dedos recebam
baionetas, e assim, expulsem
o espectro da incompreensão.

Para observar a Crosta, olhos,
apenas, não bastam; perde-se tempo.
A necessidade da renovação
neutraliza a incapacidade
de olhar o outro.