Felipe Conti

Felipe Conti

terça-feira, 12 de novembro de 2013

O que tenho a dizer depois da fuga.

Os inquietos seres do centro da cidade
dizem coisas consumadas, aleatoriamente.
Mas, talvez, os amigos periféricos
queiram dizer coisas a mais.
Mas você não sabe:
você se esconde no outro hemisfério
desde criança, quando começou
a achar graça na massa de concreto.
Você nunca abandonou a Muralha
pois sempre te assombrou
o medo da vulnerabilidade.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Um grito aos camaradas.

Continuem cantando, em qualquer forma,
prossigam, sigam o desejo essencial, como fazem.
Andem pelos passos da poesia, mostrem aos outros
o outro lado da realidade mórbida da Animalia.
Hão de segui-los: outros ainda serão abençoados,
outros ainda descobrirão o mundo com olhos parecidos.
Ainda lhes serão gratos.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Conforme o escrito.

Escrever é viver
porque escrever também intimida.
Os sonhos intimidam.
As ruas intimidam.
Os olhos intimidam.
Os inconformados também.

Já fui conformado,
desconformei-me na intimidação
das palavras.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Poema da Contemplação.

Os que já doeram-se com a brusca ruptura
- do comum ao enigmático -
entregaram-se a contemplação dos tempos
e gestos que comprovam a harmonia universal.

Descobriram o outro direcionamento, o outro olho
por entre as vísceras da trivialidade:
pensaram a vida além do que lhes foi proposto.

A observação transformou-lhes a realidade, inquestionavelmente.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Breve compreensão.

A poesia diz o que quer
e quase sempre não se desculpa.
Mas não culpe o bem-intencionado sobre o papel:
as linhas já escritas não o pertencem desde o último ponto.
Culpe a transcendência,
ou a mensagem já recebida – a nova vida
que veio a se estabelecer
sobre os teus aposentos mentais.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Transmutação.

É certo que esmoreço às vezes e
que decomponho-me em face dos sonhos,
mas não pretendo – e não devo – justificar assim
meus desencantos, pois são estes
de outros cantos, de outros dizeres ásperos e curtos.
Apenas devo dizer da vida o que
pude eu viver enquanto ausentei-me
do atrito e, dentro do cometa,
alcei voo rumo ao que se diz ser,
inquestionavelmente, livre da imutabilidade.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Sobrevida.

Num cotidiano truncado e estacionário
reside o extraordinário abatedouro do indivíduo comum
e de lá resultam quase todas as formas de desencanto.


Mas pode haver flores – ou não.
Mas pode haver cores – ou não.
Mas pode haver dores...
Então diz ele: “Pois não!...”

A carne, outrora amaciada pelas utopias,
encontra-se carimbada pelas mesmas sentenças e agora
descobriu a liberdade na prateleira do supermercado.