Felipe Conti

Felipe Conti

domingo, 31 de janeiro de 2016

Recuo.

Recuou as letras.
Preferiu rearrumar os papéis para o tédio urbano,
para a vida urbana, sem entonação nem beira.
Pôs os pés na rua.
Ruas de tráfego alterado, homens alterados de diesel,
de insolubilidades do meio.
O que desejam as pernas nessas condições?
Tempo frio na fronteira entre os braços que, quando dia,
contorcem-se buscando solução para tamanho problema,
interminável problema do homem: aquilo que ainda não veio,
o que ainda não tem forma.
Está vestido de roupas que não lhe cabem na mala,
no corpo, na sapiência, no orçamento. Na ciência também não.
Recuou as letras para não retrucar com pedras, que doem muito mais.
A incompatibilidade nos tornou animais, caro espécime.
Sigamos em frente, já que poucos se arrumam e se distorcem

a fim de encontrar o que realmente pulsa.

domingo, 24 de janeiro de 2016

Básico.

Olhos quando falam, a boca:
partes essenciais de um todo volumoso
dos seus planetas, da sua galáxia rígida,
mas que se pode andar, mesmo com a expansão 
dos braços, pernas, destes convites inconscientes.
Convites extraterrenos, onde a gravidade foge:
a gravidade deste nosso envolvimento tão circular
entre os corpos. Veja os nossos corpos e
o espaço ocupado pela incessante vontade
de orbitar contigo, juntos, nesta incerteza.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Centrífuga.

Amanhã centrifugarei você – plano novo.
Amanhã: fora do centro, fora da boca,
fora do ponto referencial do tempo de viajar.
Em algum momento queria e agora tem
toda a fonte de aniquilação de planos conjuntos,
de panos conjuntos, todos dentro de um quarto.
A tragédia social refletiu-se na tragédia do amor, meu bem.
Estamos partindo hoje, eu e minha vontade de escapar

do engano, da morte viva, da incompreensão.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Ato de ausência.

Os gestos animais perpetuam-se
e segue a guerra escancarando a barbárie:
é dela a sentença da fuga. 
Fogem por não saber lidar com a carga –
conjunto de pedras e colares vexaminosos
em bolsas amareladas de tempo.
O anoitecer é belo se acompanhado da
extinta capacidade de se ausentar da ideia
de progressão dos modernos homens.
Queria profundeza, fui-me para a janela.
Talvez não houvessem tantos problemas
se a máquina da razão usurpasse de si mesma
suas mentiras de veludo.
Por esses dias descansarei meu corpo
em retaguarda, caso queiram levar-me.
Vou variando pela rua.
Apenas hoje aceitarei a íngreme curva dos barrancos,
as pontes de ferro e de tráfegos insensíveis,
a intimação do tempo que exige arranque.
Não levarei ao ringue mais um irmão,
nem mais uma fagulha de obrigatoriedade.
Estagnar-me-ei de toda vontade.
Ouvirei os pejorativos que injustamente
caçam os trabalhadores injustiçados.
Deixo a chuva de completa
conformidade e permito que
inunde toda cadeia de produtividade
por metro quadrado.
Agora estou fora.

domingo, 11 de outubro de 2015

Sonolência.

Atravessaremos a noite, disso precisamos.
A manifestação fantástica do silêncio
afim de redimir-se das criações dos homens
e das formas cansativas de comportamento.
Tudo isso é noite, este sombreamento
que vale o tempo, se visto como facetas
da tropa estelar. E brigam com os olhos.
Atravessaremos a noite porque o dia
apresenta-nos pessoas que não querem ficar.
Não saberemos lidar com a situação.

sábado, 3 de outubro de 2015

O contra gosto.

Surge na contra vontade o dia firme
e a poesia leva aos homens um respingo
do que se pode eleger de grandiosidade.
Ou não.
Surge nas ruas a inatividade do juízo
enquanto coerentes perguntam se merecem
o peso de uma noite sem o cansaço.
O fervilho da noite pode esperar pelos seus
amigos que voam e pairam. Esqueléticos.
Que pena.
E os medianos sempre elegeram os motivos errados
e consolaram-se nessa primitividade
desse nomadismo das palavras – decoradas.

Não durmamos hoje.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Antimoral.

Esqueçam das cabeças que vigiam os corpos
e enquanto puderem, vagueiem pelas ruas.
E de noite. Façam de proposital motivo de vida.
A noite não é morte, a madrugada não faleceu o homem
que soube andar segundo o que disse o respeito.
Quem dera fossem olhos de cooperação
mas são olhos de armas a disparar projéteis inúteis.
Esta turma estranha: o Zé Povo. Estão por vir. Ainda não vieram,
estão detidos em suas casas, falando apenas o desnecessário.
Só não se esqueçam do fogo e da carabina
que outrora já lançava sobre os homens os seus próprios irmãos.
Sejam todos criadores da vida idealmente humana.