Poemas breves
Felipe Conti
domingo, 30 de março de 2014
Oito linhas urbanas.
Pelas ruas,
expressões faciais encerram
o início das observações
meramente ilustrativas:
alguns riem, outros roubam
um pouco mais da própria vida
enquanto os encarregados da mudança
procuram a válvula anti-estagnação.
segunda-feira, 3 de março de 2014
Subúrbio da Silva.
Andava pela cidade, com o peito aberto,
o Senhor Subúrbio:
escancarava o rosto periférico,
transitando através das bordas.
Sempre cantarolando a canção da fronteira,
os versos que desconhecem normas gramaticais.
Subúrbio não é normal.
Estaca social.
O preço a se pagar
pela estagnação
dos seus dias
é inabilitar-se a
perceber a ferrugem
cerebral; e nos
olhos, apenas
mais um esboço
da incapacidade:
nada completo,
nada de afeto,
nada discreto.
E nada concreto.
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
Poema intervencionista.
Democracia pura,
pura Democracia;
de dia me aprecia,
de noite me perfura.
Pura Democracia,
Democracia pura;
de dia me procura,
de noite me espia.
Democracia pura,
pura Democracia;
teu corpo não segura,
as pernas com anemia.
Para que noite? Para
que dia? Democracia
pura. A puta
Democracia que
perdura.
Democracia pura,
puta Democracia;
em teu ventre já nascia
a ditadura com açúcar.
Pura Democracia
Democracia puta;
a minha carne é dura,
meu salário é demagogia.
Puta Democracia
Democracia pura;
a chula força bruta,
a droga que vicia.
Para que nascia? Para
que açúcar? Democracia
puta. A pura
Democracia que
alicia.
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
Poema para Maria Joana.
O que pensei ser a brisa distorcida
me foi revelada como introspecção.
Me vejo nítido, logo, me conheço nítido;
apenas os questionamentos fieis
não se destroem em meio a claridade.
O que cogitei ser a brisa distorcida
me foi realizada como imaginação.
Posso tocar o sentido mais próximo
sem orientar-me na realidade
amorfa e visivelmente estúpida.
Impulso propulsor.
Que se iniciem os poemas de guerra:
que as pontas dos dedos recebam
baionetas, e assim, expulsem
o espectro da incompreensão.
Para observar a Crosta, olhos,
apenas, não bastam; perde-se tempo.
A necessidade da renovação
neutraliza a incapacidade
de olhar o outro.
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
Mãe do coração atômico. (Para o instrumental "Atom Heart Mother" da banda Pink Floyd)
Mãe do coração atômico,
a coruja dos filhos com remorso.
A guerra os arrastou;
as três faces idênticas
se despedaçaram no front.
Os gritos maternos vieram depois,
como súplicas, medonhamente.
Primeiro, as dores das trincheiras.
Mas a guerra não cessou,
jamais cessou. A inconformidade
também não.
As artérias também gritavam
pois a boca desmanchou-se.
Os campos de batalha acolheram,
sem qualquer esboço sentimental,
as três faces.
O coração atômico,
então,
explode.
A dor, também atômica,
se foi.
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