Felipe Conti

Felipe Conti

domingo, 24 de janeiro de 2016

Básico.

Olhos quando falam, a boca:
partes essenciais de um todo volumoso
dos seus planetas, da sua galáxia rígida,
mas que se pode andar, mesmo com a expansão 
dos braços, pernas, destes convites inconscientes.
Convites extraterrenos, onde a gravidade foge:
a gravidade deste nosso envolvimento tão circular
entre os corpos. Veja os nossos corpos e
o espaço ocupado pela incessante vontade
de orbitar contigo, juntos, nesta incerteza.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Centrífuga.

Amanhã centrifugarei você – plano novo.
Amanhã: fora do centro, fora da boca,
fora do ponto referencial do tempo de viajar.
Em algum momento queria e agora tem
toda a fonte de aniquilação de planos conjuntos,
de panos conjuntos, todos dentro de um quarto.
A tragédia social refletiu-se na tragédia do amor, meu bem.
Estamos partindo hoje, eu e minha vontade de escapar

do engano, da morte viva, da incompreensão.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Ato de ausência.

Os gestos animais perpetuam-se
e segue a guerra escancarando a barbárie:
é dela a sentença da fuga. 
Fogem por não saber lidar com a carga –
conjunto de pedras e colares vexaminosos
em bolsas amareladas de tempo.
O anoitecer é belo se acompanhado da
extinta capacidade de se ausentar da ideia
de progressão dos modernos homens.
Queria profundeza, fui-me para a janela.
Talvez não houvessem tantos problemas
se a máquina da razão usurpasse de si mesma
suas mentiras de veludo.
Por esses dias descansarei meu corpo
em retaguarda, caso queiram levar-me.
Vou variando pela rua.
Apenas hoje aceitarei a íngreme curva dos barrancos,
as pontes de ferro e de tráfegos insensíveis,
a intimação do tempo que exige arranque.
Não levarei ao ringue mais um irmão,
nem mais uma fagulha de obrigatoriedade.
Estagnar-me-ei de toda vontade.
Ouvirei os pejorativos que injustamente
caçam os trabalhadores injustiçados.
Deixo a chuva de completa
conformidade e permito que
inunde toda cadeia de produtividade
por metro quadrado.
Agora estou fora.

domingo, 11 de outubro de 2015

Sonolência.

Atravessaremos a noite, disso precisamos.
A manifestação fantástica do silêncio
afim de redimir-se das criações dos homens
e das formas cansativas de comportamento.
Tudo isso é noite, este sombreamento
que vale o tempo, se visto como facetas
da tropa estelar. E brigam com os olhos.
Atravessaremos a noite porque o dia
apresenta-nos pessoas que não querem ficar.
Não saberemos lidar com a situação.

sábado, 3 de outubro de 2015

O contra gosto.

Surge na contra vontade o dia firme
e a poesia leva aos homens um respingo
do que se pode eleger de grandiosidade.
Ou não.
Surge nas ruas a inatividade do juízo
enquanto coerentes perguntam se merecem
o peso de uma noite sem o cansaço.
O fervilho da noite pode esperar pelos seus
amigos que voam e pairam. Esqueléticos.
Que pena.
E os medianos sempre elegeram os motivos errados
e consolaram-se nessa primitividade
desse nomadismo das palavras – decoradas.

Não durmamos hoje.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Antimoral.

Esqueçam das cabeças que vigiam os corpos
e enquanto puderem, vagueiem pelas ruas.
E de noite. Façam de proposital motivo de vida.
A noite não é morte, a madrugada não faleceu o homem
que soube andar segundo o que disse o respeito.
Quem dera fossem olhos de cooperação
mas são olhos de armas a disparar projéteis inúteis.
Esta turma estranha: o Zé Povo. Estão por vir. Ainda não vieram,
estão detidos em suas casas, falando apenas o desnecessário.
Só não se esqueçam do fogo e da carabina
que outrora já lançava sobre os homens os seus próprios irmãos.
Sejam todos criadores da vida idealmente humana.


quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Noctívago.

Madrugada é para os explodidos da bomba
porque eles a compreendem e permanecem ilesos.
Erga seus ombros e suscitará na rua lisa
toda esta situação fantástica do silêncio e da ausência.
Deve-se falar na hora certa e com a comunhão do grupo
completa-se o envolvimento com algo muito maior
que arrebata-nos do chão quando sintonizamos a grande onda.
Onda que segue rente ao inimaginável.
Segue a madrugada e com ela, congelando na prosa
artefatos da vida, a simplicidade da noite na comunicação
daqueles que preferiram ausentar-se da quentura da cama.
Agora tudo segue a vida e deixa que a ausência das vozes
configure um novo olhar sobre a noite.
A lua insiste e eu, noctívago, desperto-me para a calmaria
desta cidade tão mortal onde os indivíduos se perdem
e se encontram para dar frequência a um lugar qualquer.