Felipe Conti

Felipe Conti

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Sobrevida.

Num cotidiano truncado e estacionário
reside o extraordinário abatedouro do indivíduo comum
e de lá resultam quase todas as formas de desencanto.


Mas pode haver flores – ou não.
Mas pode haver cores – ou não.
Mas pode haver dores...
Então diz ele: “Pois não!...”

A carne, outrora amaciada pelas utopias,
encontra-se carimbada pelas mesmas sentenças e agora
descobriu a liberdade na prateleira do supermercado.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

A lacuna dos meus sonhos.

Necessito saber de imediato, o que devo eu escrever
nestas linhas sem suporte, de modo a não ser visível
que definho sempre que ponho-me em memória de você.
E não tem o papel culpa alguma, pois ele está sobre as mãos
e não esboça nem um riso, a menos que eu arrisque contorna-lo.
Mas você, que agora não está sobre as mãos, esboça fardos de
um sorriso que não se ousa saber as mãos de quem o contorna.
*
Então, sou agora obrigado a cair para esta linha, ainda sem suporte,
porém, nem mesmo a liberdade poética pode compreender tal profundidade:
deixei na oitava linha um espaço onde há de caber o seu nome.
Sei que pareço, por isso, um estúpido com canetas esferográficas.
Mas assim, posso forçar-te a voltar mais vezes.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

O brigado.

Ao brigado
ficou obrigado que
dirá sempre “obrigado”
a todo corpo que lhe for útil.
Mas é ele brigado com o corpo que lhe deram
e não vê aos outros senão como cadáveres.
Porém não sabe ele o que é corpo,
desconhece anatomia e
rejeita qualquer gesto
obrigado.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Escombro social.

Sujeito estranho, ou aquele que não se diminuiu e
nem se aumentou em meio aos outros animais da cidade.
O barbado iludido, o sentinela que guarda rancores.
É ele o escombro, em qualquer passo e indagação;
a incógnita social mais odiada, porém, a legítima.
É ele o inverso do trivial, somado a mil e cem
maneiras de introspecção e observações
para além do proposto por lei. É ele. Ninguém mais.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Entusiasta.

Venho, com dor imensa, anunciar a morte de Elias, que
também nasceu para a estatística, pois era Elias, o Entusiasta:
propunha a popularização dos sonhos e a coletivização das ideias;
não era partidário, nem orador, mas “louco”, como o chamavam.
Mas os loucos dessa cidade são os que não compreenderam
a loucura de estar sempre errado perante as línguas-da-moral,
enquanto se vive quieto, na comunhão, apenas acrescentando
a si e aos demais. Por todo sempre e para sempre. Amém.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Cartões Postais (medonhos) da Cidade.

São muitos os malucos urbanos para os poucos muros de pedra e
agora, também são de pedra, os sonhos e os planos para o sábado.
Mas que droga! Meu pensamento tornou-se sólido e caiu, feito pedra e
os cantos deste lugar apodrecem sobre latas que não são de lixo.
A luz por certo não se meterá com lugares assim, tão frios e
tão urbanos, como qualquer praça ou esquina ou bairro da cidade.
Não conseguem, por muito tempo, fixar os olhos em nossas faces
que são magras e pálidas, estranhas e grosseiras, feito dor, feito pedra.


Fogo amigo.

A existência me parece estranha
e meu olho direito me parece torto.
Mas o que diz respeito ao ser mais próximo
e a tal profunda liberdade natural,
creio ser incompreensível que a pedra
alce voo das mãos medíocres
e colida-se com um dos outros, que são
por parte da espécie, irmãos de trincheira.